Dei prolegomeni o precognizioni

Eduardo Kickhöfel. Foro Romano visto da Via Monte Tarpeo em janeiro de 2018. Roma, Itália.

Dei prolegomeni o precognizioni

Eduardo Kickhöfel

I. O tempo presente não é apenas antiquíssimo, mas após séculos de história suas camadas não estão dispostas umas sobre outras em padrões regulares e imediatamente identificáveis, como estratos geológicos depositados linearmente, mas sim entrelaçadas entre si em miríades de modos, como em cidades velhas. Não conheço exemplo melhor do que Roma, uma espécie de bricolage resultante de processos intrincados e acidentais, como mostra a foto acima. Certo, era Florença o centro do Renascimento entre os séculos XIV e XV, mas a maior parte das ruínas antigas estava em Roma, e humanistas e artífices de Florença viajavam para lá tendo como objetivo estudá-las e dar imaginação e vida aos textos que avidamente descobriam e liam. Além disso, Florença também era romana, e abaixo dos restos de Santa Reparata, igreja anterior ao Duomo, existem fragmentos de casas romanas, inclusive de mosaicos de artífices romano-africanos, e abaixo do Palazzo Vecchio existem restos de um teatro romano.

Escrevo estas linhas pensando a respeito de uma edição de prefácios renascentistas que tenho pensado, a qual talvez seja uma espécie de porta de entrada para a civiltà do Renascimento, das quais Roma e Florença são cidades exemplares, velhas cidades hoje encrustadas no mundo contemporâneo.

II. Talvez eu tenha imaginado esse projeto em alguma caminhada através de Florença no inverno passado, ou talvez folheando uma edição das obras completas de Benedetto Varchi, na qual encontrei o texto Dei prolegomeni o precognizioni (Dos prolegômenos ou das precognições). Sei tão pouco de mim que às vezes me surpreendo que escrevo páginas como esta. Entretanto, esse pouco saber não me esmaga, mas liberta-me para seguir adiante.

No ano passado, em reuniões de meu grupo de estudos, traduzimos e lemos linha após linha diversos prefácios para conhecer e incorporar vocabulários, conceitos e questões do Renascimento em nossos modos de pensar, discutir e escrever. Entretanto, eu ainda pensava o projeto como continuação do projeto galileano, do qual escrevi no post La fabrica delli strumenti, sem fazer expectativas de alguma data. Então, em um reunião no segundo semestre, decidimos realizá-lo neste ano como base para o livro galileano. Era óbvio, mas chegar a ideias óbvias requer tempo e, principalmente, uma certa teimosia de pensar questões tidas como simples. Entre outros textos, lemos os prefácios de Matteo Palmieri (Libro della vita civile), Cennino Cennini (Il libro dell’arte), Leon Battista Alberti (Della pittura), Luca Pacioli (De divina proportione), Nicolau Copérnico (De revolutionibus orbium coelestium) e Niccolò Tartaglia (General trattato di numeri et misure). Sendo preciso, nos casos de Cennini e Pacioli, lemos os primeiros capítulos de seus tratados que funcionam como prefácios. Escolhi esses textos em vista das pesquisas que desenvolvíamos.

Agora, tendo uma ideia esboçada, visamos ler outros prefácios de modo a desenharmos um amplo arco da civiltà do Renascimento Textos não faltam, efetivamente. Basta folhear a seção de fontes primárias do Cambridge History of Renaissance Philosophy, publicado em 1988, para que se tenha uma ideia da vasta produção filosófica do Renascimento. Passados trinta anos, dada a imensa quantidade de textos disponíveis em páginas como e-rara e Das Münchener DigitalisierungsZentrum, temos de estabelecer critérios para que não nos percamos. Recordo Jorge Luis Borges, no poema Junio 1968: “Ordenar bibliotecas es ejercer de un modo modesto y silencioso el arte de la crítica.”

Primeiro, por que motivos editar um livro de prefácios? Aqui, passo a palavra para Varchi, nas primeiras linhas de seu texto Dei prolegomeni o precognizioni:

Sogliono gli spositori greci, i quali non sono meno diligenti che dotti, sempre que esse pigliano a sporre o commentare qual si voglia libro, dichiarare primeiramente alcuni capi che se chiamano da loro grecamente Prolegomeni, ciò è cose che si dicono innanzi, e da’ filosofi latini, i quali andarono imitando i Greci, Precoginizioni, ciò è cose le quali si deono conoscere prima, ciò è sapere innanzi che si venga alla sposizione e dichiarazione del testo; senza i quali capi sarebbe, se non impossibile, certo malagevole intendere perfettamente le cose che in esso libro si contengono e trattano.

Habituam-se os expositores gregos, os quais não são menos diligentes do que doutros, sempre que se colocam a expor ou comentar qualquer livro, a declarar primeiramente alguns itens que eles chamam gregamente Prolegômenos, isto é, as coisas que são ditas antes, e dos filósofos latinos, que imitaram os gregos, Precognições, ou seja, as coisas que se deve conhecer primeiro, isto é, saber antes que se vá à exposição e à declaração do texto. Sem esses itens seria, se não impossível, certamente difícil entender perfeitamente as coisas que esse livro contém e trata.

Segundo, em relação ao arco temporal, anoto que a palavra “Renascimento” aponta para um conceito elaborado por Jules Michelet no livro Histoire de France, publicado em 1855. Uso-a neste blog pelo simples motivo que não conheço alternativa viável, sem esquecer que filósofos, humanistas e artífices escreveram a respeito de voltar aos textos antigos para ter modelos louváveis e, então, restaurar e superar a grandeza da Antiguidade. Isto posto, entendemos o período compreendido aproximadamente entre os anos 1350 e 1650. A data inicial faz referência aos primeiros escritos de Francesco Petrarca, e a data final diz respeito à permanência da filosofia aristotélica nas universidades europeias. “Aproximadamente” significa não assumir distinções precisas, pois essas datas são convencionais. Certo, entre a filosofia natural de Jean Buridan e os Principia Mathematica de Isaac Newton existem diferenças fundamentais. Entretanto, não faz sentido perguntar quando precisamente foi instaurada a nova física dos modernos. Podemos considerar o livro de Nicolau Copérnico publicado em 1543, De revolutionibus orbium coelestium, como marco. Entretanto, diversas de suas concepções ainda são antigas, como o universo fechado no qual os corpos celestes fazem movimentos circulares e uniformes. Além disso, o atlas celeste de Andreas Cellarius Harmonia macrocosmica, publicado em 1660, ainda considera o cosmos aristotélico-ptolomaico como hipótese válida. Documentos não se apresentam dispostos em padrões regulares e imediatamente identificáveis, e tendo a ser pragmático quando uso palavras que denotam conceitos. Ao invés de pensar a respeito de “essências” e conceitos semelhantes, penso wittgensteinianamente a respeito de “relembranças de família”: ao definir um objeto ou fenômeno, não considero definições simples nos termos de um conjunto de condições necessárias e suficientes, mas sim a ideia de condições que se intersectam de modo complexo de acordo com seus usos em seus respectivos contextos históricos. Não precisamos saber limites precisos para estudar questões renascentistas, mas limites que estabelecemos tendo em vista objetivos específicos. Aliás, usemos a palavra “Renascimento”, desde que saibamos de suas virtudes e seus defeitos.

Terceiro, retomando questões do primeiro post deste ano, utilizamos vocabulários, conceitos e divisões da filosofia da época. Dito de modo simples, utilizamos noções básicas do próprio Renascimento para estudá-lo. Pensar divisões da filosofia tem especial importância para nós, pois elas fornecem uma espécie de mapa conceitual do período, explicitando relações ente conceitos centrais e relações entre esses conceitos e conceitos subordinados. Nesse sentido, tenho elaborado com uma aluna uma edição do texto Divisione della filosofia de Varchi, que expressa uma espécie de koiné aristotélica do período em questão. Essa edição incluirá um ensaio introdutório a respeito de diversas divisões da filosofia no Renascimento, que talvez a revisemos para o projeto que aqui apresento. Assim, neste ano estudaremos prefácios que tratam da parte teórica da filosofia, ou seja de questões metafísicas, matemáticas e físicas; prefácios que apontam para questões éticas, econômicas e políticas; e prefácios que tratam de artes específicas. Também aqui sugiro não assumirmos distinções precisas entre as partes da filosofia. Não raro, os saberes se apresentam entrelaçados entre si em miríades de modos, como parte de velhas cidades. Se a distinção básica entre ciências e artes – ou seja, entre saberes teóricos e saberes práticos – era permeável desde os antigos, como sugerem algumas das artes liberais, no período em questão essa distinção foi feita mais e mais permeável, sendo efetivamente uma de suas características importantes e distintivas. Um homem como Leon Battista Alberti transitava por diversas formas de saberes, e Galileu tinha formação como matemático e também mantinha uma oficina de instrumentos em Pádua.

Quarto, com anotei acima a respeito dos tratados de Cennini e Pacioli, considero editar não apenas prefácios nomeados como tais, mas também textos que servem como prefácios. Também, considero publicar prefácios escritos pelos próprios autores dos livros que apresentam, mas textos de editores e cartas dedicatórias de edições e reedições eventualmente funcionam como prefácios. Aliás, além de um ensaio introdutório e talvez breves ensaios para seções da edição, caso existam, considero traduzir Dei prolegomeni o precognizioni como uma espécie de guia para os textos que estudarmos.

Por fim, teremos uma série de questões editoriais para resolver, como por exemplo publicar ou não textos em suas línguas originais (que implica elaborar critérios de transcrição, caso usemos fac-símiles de textos de que temos edições recentes ou que jamais foram republicados), critérios de ordenação (cronológica ou temática) e outros mais. Seja como for, em breve farei uma seleção prévia de prefácios para que seja comentada e ampliada, e estou aberto a sugestões e críticas de qualquer espécie em torno do projeto aqui esboçado.

III. O projeto visa preencher uma série de lacunas acadêmicas. Em primeiro lugar, a filosofia do Renascimento compreende um vasto mundo a descobrir. Nesse sentido, visamos fornecer um instrumento inicial de pesquisa para que se possa conhecer autores importantes do Renascimento. A confiar em eventos e publicações acadêmicas que acompanho nos últimos vinte e poucos anos, Niccolò Machiavelli já tem lugar na história da filosofia política, e Michel de Montaigne é estudado principalmente no contexto da história do ceticismo. Nicolau de Cusa, Marsilio Ficino e Pico della Mirandola, por sua vez, são conhecidos, eles são restritos a investigadores especializados, e suspeito que Giordano Bruno seja conhecido mais por seu trágico fim do que por sua obra. Conheço quem estuda Leonardo Bruni, Lorenzo Valla e Benedetto Varchi, por exemplo, mas eles também fazem parte de estudiosos especializados. Francesco Petrarca, não obstante sua importância ao formular a ideia de vita activa, em geral é estudado por latinistas. Copérnico e Galileu talvez sejam os autores mais conhecidos e estudados, mas no âmbito da filosofia da ciência. De fato, não conheço um único texto que considere esses autores no contexto amplo da filosofia do Renascimento. Se vale um exemplo importante, ao falar da organização tradicional dos saberes na introdução de sua tradução do Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo, Pablo Mariconda volta à divisão das ciências sugerida por Aristóteles. Está correto, pois o contexto do Renascimento que Galileu enfrentou era aristotélico em suas linhas gerais. Entretanto, faz pouco sentido voltar ao estagirita existindo diversas divisões da filosofia elaboradas no Renascimento, inclusive a divisão de um jesuíta do Collegio Romano que viveu na época de Galileu, Franciscus Toletus, na qual Aristóteles aparece cristianizado. Vale dizer que a divisão proposta por Toletus está disponível no Cambridge History of Renaissance Philosophy, no qual é considerado por William Wallace importante por resumir as tradições gregas e latinas, assim como a escolástica na Itália e na Península Ibérica.

Em segundo lugar, visamos descrever e colocar em prática um método de estudos que visa entendimento histórico. Surpreendo-me com falta de rigor e precisão conceitual em textos que leio, e surpreendo-me também com falta de estudos de método. Não custa dizer, outra vez, que no Renascimento a palavra “arte” indicava conhecimentos práticos e ofícios de artífices que faziam obras seguindo encomendas e contratos, mas não a obras de arte feitas por artistas que expressam suas próprias subjetividades, e a palavra “ciência”, usada indistintamente da palavra “filosofia”, quando em relação a estudos sobre a natureza apontava para conhecimentos teóricos e especulativos subordinados a concepções metafísicas, mas não para leis naturais obtidas através de observações sistemáticas e experimentos, expressas matematicamente. Assim escrito, parece simples, mas chegar a essa formulação requer estudos meticulosos sobre fontes.

IVHá poucos dias, caminhando ao lado do Duomo de Florença, pensei que saber que Michelangelo fez o David para ser colocado sobre um de seus contrafortes tem importância como dado histórico. Entretanto, parece-me mais importante saber por que motivos o David foi colocado na Piazza della Signoria, ou seja, em linguagem aristotélica sair do âmbito de experientes que só sabem o quê, mas não o porquê, para conhecer noções universais, justamente os porquês. Aqui, parece-me importante voltar a Platão e Aristóteles a respeito de artes e ciências como formas de conhecimento hierarquizadas, sendo estas melhores e mais excelentes do que aquelas (tendo como fundo questões míticas e religiosas); pensar a respeito do Campanile do Duomo e de fontes de época que mencionam divisões da filosofia (idem); pensar a respeito de novos valores dados à vita activa e às artes naquela civiltà que então renascia (e que lentamente iniciavam processos de secularização); pensar a respeito do background cívico-religioso por trás da comissão do David (um símbolo cívico-religioso que justificava a república de Piero Soderini); pensar ideias posteriores a respeito de arte, as quais tiveram origem justamente naquele período (ideias que fizeram o David ser colocado em outro lugar, ou seja, na Galleria dell’Accademia agora como obra de arte); etc.

Escrevo estas linhas porque pergunto-me diariamente por que motivos estudo. Dito de modo simples, experiências requerem conhecimentos prévios, e quanto mais conhecimentos tenho, mas intensas talvez elas sejam. Cidades velhas como Roma e Florença são complexas demais para qualquer vida, e talvez conhecer frações delas hoje, dado o volume de informações que temos à disposição, requeira novos instrumentos, como gráficos multidimensionais que dispõem documentos em redes e mostram padrões de dispersão, por exemplo. Talvez assim se possa perceber relações entre fenômenos e objetos – perceber conexões! – de modo cada vez mais intenso. Em seu devido tempo, escreverei a respeito de outro projeto já em curso, que elaboro em horas perdidas e que visa fornecer novos instrumentos para conhecer, do qual o projeto de prefácios seja o começo. Dito de modo ainda mais simples, estudar me diverte!

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Dopo il restauro

Leonardo da Vinci. Adoração dos magos, 246 x 243 cm, c. 1481-82. Galleria degli Uffizi, Florença.

Dopo il restauro

Eduardo Kickhöfel

I. Eis a obra restaurada. Admito que durante alguns segundos a obra me pareceu fake, tamanha foi minha surpresa. Em um dado momento, conversei com o principal restaurador da obra, Roberto Bellucci, que me explicou detalhes da restauração e fez-me ver partes da obra de modo inédito, como a água aos pés da Virgem em primeiro plano, presente em outras obras de Leonardo da Vinci. Fiquei impressionado com as figuras à direita, desenhadas com pigmento branco sobre fundo escuro, feitas em um período posterior à primeira redação da obra. Elas me recordam pinturas que Tintoretto fez décadas após, como por exemplo um quadro inacabado Doge Alvise Mocenigo Presented to the Redeemer, em especial as figuras de Cristo e do músico logo abaixo, que está no Metropolitan Museum of Art. Quem quiser ver imagens e ler a respeito da restauração da Adorazione dei Magi, sugiro a leitura do texto Il restauro dell’Adorazione dei Magi di Leonardo da Vinci. Aliás, basta clicar nas imagens para vê-las em alta definição, e os leitores mais atentos verão até um elefantinho na versão restaurada.

O quadro inacabado apresenta um frescor que talvez se aproxime de seu estado original. Claro, ele tem áreas escurecidas devido ao decaimento de certos pigmentos, principalmente aqueles à base de cobre, que de verdes tornaram-se marrons ao longo dos séculos. Entretanto, os restauradores tiraram cuidadosamente camadas posteriores, como vernizes envelhecidos que ocultavam não só desenhos, mas também cores, como se vê no céu agora azulado.

II. Tal qual vernizes envelhecidos que ocultaram partes da obra, ao longo dos séculos certos usos de certas palavras foram perdidos e desapareceram, e novos usos foram elaborados. Como no caso da cidade velha, usos antigos determinaram novos usos. Como já escrevi diversas vezes neste blog, a palavra “arte” na época de Leonardo fazia referência a formas de conhecimento para produzir e profissões que delas faziam uso. Aliás, na Encyclopédie, ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, publicada por Denis Diderot e Jean-Baptiste le Rond d’Alembert entre 1751 e 1772, arte ainda significa “disciplineen général”, ou seja, o sentido de conhecimento que vinha dos antigos, e só em meados século XVIII a palavra “arte” começou a ser usada no sentido de obra de arte. Talvez o primeiro texto importante seja Geschichte der Kunst des Alterthums (História da Arte da Antiguidade), publicada por Johann Joachim Winckelmann em 1764, mas não duvido que se encontre o sentido de obra de arte em tratados italianos um pouco anteriores. Os sentidos de arte como conhecemos hoje em parte derivam dos sentidos antigos, ou seja, obras apreciadas principalmente por suas características estético-formais, independentemente do fato se foram feitas como tais. Semelhantemente, recordo que a palavra “filosofia”, que no “Renascimento” era usada no sentido de conhecimento de coisas humanas e divinas juntamente com o estudo do bem viver, mas não de doutrinas de certos filósofos (filosofia aristotélica e filosofia kantiana), tradições históricas consolidadas (filosofia grega e filosofia moderna) e escolas  contemporâneas (filosofia analítica e filosofia continental). Assim como restaurar obras da época de Leonardo requer conhecer materiais e a arte da pintura da época, restaurar sentidos de textos requer fontes que explicitam definições e divisões da filosofia. Também, restaurar requer conhecer restauros posteriores, seus objetivos e métodos, tal qual talvez seja útil conhecer a história da formação dos conceitos que usamos e da formação de nossas disciplinas.

Restaurado, o mundo continua “tudojuntomisturado”, mas de outro modo. Tendo em vista estudos históricos, agora pode-se categorizar, identificar elementos e estabelecer relações de modo renovado. Por exemplo, na segunda metade do século passado Paul Oskar Kristeller e Eugenio Garin escreveram longos e eruditos artigos a respeito da existência ou não de filosofia no Renascimento, cada qual seguido por inúmeros estudiosos. Tanto quanto recordo, esses textos não deixam precisa a ideia de filosofia da época, que fica quando muito subentendida. Basta ver a gravura de Gregor Reisch, que já publiquei aqui, ou ler o pequeno Divisione della filosofia de Benedetto Varchi para resolver essa questão. Se filosofia for considerada em sentido amplo, ou seja, conhecimentos sistematizados por princípios e causas, então os humanistas e retóricos florentinos foram filósofos, pois eles se ocupavam de questões da parte prática da filosofia (e Reisch coloca a retórica dentro da filosofia, mas Varchi sugere que certas pessoas querem que a retórica seja apenas instrumento que serve à filosofia). Se for considerada em sentido estrito, ou seja, conhecimento demonstrativo, eles não foram filósofos.

III. Restaurar a Adorazione foi um processo lento. Exames começaram em novembro de 2011, e somente em outubro de 2012 foi tomada a decisão de restaurá-la. A restauração durou quatro anos e meio, e os resultados surpreenderam, tal qual em outras restaurações polêmicas, como no caso da Capela Sistina e, recentemente, da Catedral de Chartres. Sair de hábitos cotidianos, que seja ver uma obra de arte como se fosse um velho amigo que nos faz confortável, exige não só esforços contínuos, mas aceitação contínua de erros e incertezas, como escrevi recentemente.

Hoje, estava relendo artigos do biólogo evolucionista Kevin N. Laland, entre os quais “Animal cultures”. Nesse artigo, Laland resume um argumento dos autores de livros importantes como The Origin and Evolution of Cultures: “Rob Boyd and Peter Richerson postulated a costly information hypothesis, which proposes an evolutionary trade-off between reliable but costly self-acquired information and potentially less reliable but cheap socially transmitted information.” Sorri maldosamente ao ler “cheap socially transmitted information”, recordando o ambiente acadêmico de que faço parte, não obstante pretensões em contrário de quem faz parte dele…

Após dois posts um tanto improvisados e rápidos, o próximo post tratará do projeto de prefácios que meus alunos e eu desenvolveremos neste ano.

Adorazione dei Magi

Leonardo da Vinci. Adoração dos magos, 246 x 243 cm, c. 1481-82. Galleria degli Uffizi, Florença.

Adorazione dei Magi

Eduardo Kickhöfel

I. Na semana passada, recebi um convite para ver a Adorazione dei Magi de Leonardo da Vinci após o recente restauro, em uma visita fechada para estudiosos na Galleria degli Uffizi. Na segunda-feira de manhã, após leves e breves conversas com conhecidos e desconhecidos, subi um pouco agitado à sala da Adorazione. Enquanto o diretor da galeria estava fazendo uma breve introdução na primeira das salas dedicadas à obra, eu e uma historiadora do Kunsthistorisches Institut saímos discretamente para ver a Adorazione. Vendo aquela imensa pintura inacabada, praticamente um esboço, sorri como há muito tempo eu não sorria.

Como estudioso da civiltà em que viveu Leonardo, pensei a respeito do tema representado, ou seja, a epifania de Cristo que anuncia a salvação da humanidade, tema que de diversos modos cimentava relações sociais daquela cidade na época de Leonardo. Pensei outra vez a respeito de aproximações entre artes e ciências no período em questão e de novos valores dados às artes, no sentido amplo de saberes produtivos sistematizados, os quais tornavam possível um artífice como Leonardo executar uma obra cara e sofisticada como aquela. Recordei o Duomo de Florença, feito em uma época de misérias que talvez não consigamos imaginar, feito justamente por causa de sofrimentos em meio a esperanças de vidas melhores. Pensei também a respeito de questões formais como historiador da arte, especialmente o arco da pintura italiana que começou com Giotto, passou por Masaccio e teve em Leonardo o primeiro grande expoente da “terza maniera che noi vogliamo chiamare la moderna”, como escreveu Giorgio Vasari em 1550. Recordei Leon Battista Alberti e sua preceptiva a respeito dos “moti dell’anima”, e vi colegas observando a beleza daquela obra; que absurdo estar ali, pensei, vendo uma pintura feita para devoção em um mundo que esperava salvação, mas que hoje é admirada apenas por ser bela. Como desenhista, observei partes da pintura tendo como background minha prática de desenhar, e pensei a respeito de refinar meus gostos e de milhares de desenhos a fazer, desenhos sem função alguma. Sendo um materialista desencantado, pensei, resta-me seguir Francis Bacon: “I think that, if one could find a valid myth today where there was the distance between grandeur and its fall of the tragedies of Aeschylus and Shakespeare, it would be tremendously helpful. But when you’re outside a tradition, as every artist is today, one can only want to record one’s own feelings about certain situations as closely to one’s own nervous system as one possibly can.”

Em meio a pessoas diversas, esses pensamentos se alternavam rápida e repetidamente, e pensei que o mundo está “tudojuntomisturado”, como diz uma amiga paulistana, e desencadeia em nós pensamentos assim, todosjuntosmisturados. Resta elaborar e desenvolver métodos para classificar e organizar partes de nossas experiências, e então perceber e entender relações entre essas partes.

II. Na época de doutorado, li e reli Ludwig Wittgenstein ao comparar nossa língua a uma cidade velha: “Nossa língua pode ser vista como uma velha cidade: um labirinto de pequenas ruas e praças, velhas e novas casas, e casas com adições de vários períodos; e isso é circundado por uma imensidão de novos bairros com ruas retas e casas uniformes.” Pensei essa imagem em um continuum temporal, que fez parte de um texto um tanto especulativo que escrevi naquela época.

Hoje, penso que nossa língua pode ser vista como uma cidade que se origina a partir de um pequeno labirinto de pequenas ruas, praças e casas. Ao crescer, certas adições talvez tenham origens antigas e funções diversas de suas funções originais, e as partes da cidade que são destruídas determinam as adições colocadas a seguir, fazendo da cidade “um labirinto de pequenas ruas e praças, velhas e novas casas com adições de vários períodos”. A cidade cresce a partir do encontro desse núcleo em expansão com outros núcleos, progressivamente interligados por ruas e avenidas que os unem entre si, algumas das quais são retas e uniformes, outras talvez nem tanto, fazendo a cidade velha ser uma espécie de bricolage de processos intrincados (no sentido de que se reforçam mutuamente) e acidentais (no sentido que não se pode prevê-los). Eventualmente, algumas cidades são feitas de ruas retas e casas uniformes previamente planejadas, mas as formas de vida que fazem cidades continuamente renovam-nas, fazendo-as também bricolages intrincadas e acidentais.

As adições de vários períodos posteriores fazem cidades contemporâneas serem mais velhas do que as cidades velhas do passado. Assim, no caso da civiltà em que Leonardo da Vinci nasceu e viveu, restam fragmentos, e esses fragmentos estão alterados. No caso da Adoração dos Magos, Leonardo a começou para ser usada em serviços religiosos, mas resta inacabada e está em parte consumida pelos séculos na Galleria degli Uffizi, ou seja, um museu de obras de arte.

Línguas crescem como cidades velhas, línguas crescem em cidades velhas. Línguas são como “um labirinto de pequenas ruas e praças, velhas e novas casas, e casas com adições de vários períodos”, bricolages intrincadas e acidentais formadas ao longo de séculos de história. Basta recordar palavras antigas de múltiplos sentidos como “philosophia” para entender isso.

III. Hoje, passei o dia em Ravenna pensando a respeito deste post. Por exemplo, a Basilica di San Vitale tem elementos romanos e bizantinos, por exemplo, e a decoração em mosaicos do século VI está acompanhada de afrescos do século XVIII, tudojuntomisturado. Aliás, San Vitale funciona como museu de arte, e não sei se serviços religiosos ainda são feitos lá. Como fazer, caso se queira entendimento histórico de um monumento como esse? Nos últimos anos, tenho pensado a respeito de restaurar, assunto de que tratei logo no início deste blog e do qual escreverei amanhã ou depois de amanhã, com a imagem da obra de Leonardo restaurada.

La fabrica delli strumenti

Galileu Galilei e Marcantonio Mazzoleni. Compasso geométrico-militar. Latão, 25,6 cm x 36.0 cm (aberto), circa 1606. Museo Galileo, Florença.

La fabrica delli strumenti

Eduardo Kickhöfel

I. O grupo de estudos La fabrica delli strumenti está baseado sobre as linhas gerais de minhas investigações que descrevo no post anterior, ou seja, fazer história da filosofia ou história do conhecimento a partir do estudo sistemático de vocabulários, conceitos e questões amplas do Renascimento. O foco do grupo visa estudar como Galileu Galilei aproximou artes e ciências – nos sentidos amplos de saberes práticos e saberes teóricos – em diversos modos, sugerindo interesses mútuos e inéditos entre homens práticos e teóricos característicos da época em que vivia.

II. Esbocei o projeto do grupo de estudos quando eu morava na Itália, entre 2014 e 2015, época em que organizei de modo inédito meus estudos acadêmicos. Eu esboçara um framework para estudar o amplo processo de reorganização dos saberes ocorrido aproximadamente entre os séculos XIV e XVII, que resultou na formação do mundo moderno. Leonardo da Vinci era nodo desse processo, não obstante o conhecido fato que suas investigações de filosofia natural não fizeram parte da formação da nova ciência dos modernos. Galileu era outro nodo importante, e pouco a pouco eu pensava sua obra como objeto central de minhas investigações históricas. Certo, eu já havia feito cursos a respeito da nova física do matemático pisano, mas agora sua obra ganhava uma dimensão nova em meus estudos. Após voltar ao Brasil, em meio a cursos, entre os quais Ars proprium humanitatis, que publiquei parcialmente neste blog, voltei àquele projeto. Por acaso e felicidade, encontrei alunos interessados em questões de um período da história da filosofia ainda pouco estudado, ao menos em relação a outros períodos. Além disso, em um meio acadêmico conhecidamente hostil às ciências naturais e um tanto pessimista, desde então eles se mostram abertos e curiosos à perspectiva de mundo científica e otimista que expresso, e inclusive aqui e ali falamos a respeito de questões contemporâneas derivadas da ciência dos modernos.

III. Galileu foi um dos personagens mais significativos na passagem do século XVI ao século XVII. Em seus anos em Pádua, ocorridos entre 1592 e 1610, ele escreveu um pequeno tratado de mecânica, que mostra que desde o início de sua carreira como professor de matemática ele teve interesses em aproximar conhecimentos teóricos e práticos, transformando as artes mecânicas na ciência mecânica para construir máquinas simples que tinham fins úteis. Nessa época, ao fazer experimentos, isto é, artifícios construídos para testar hipóteses, Galileu aproximava artes mecânicas, física e matemática. Ele publicaria suas ideias apenas em 1638 nos Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze (Discursos e demonstrações matemáticas acerca de duas novas ciências), livro que trata dos usos de artes e ciências para os fins da vida civil, especialmente a “scienzia nuova intorno alla resistenza de i corpi solidi all’essere spezzati” (“a ciência nova acerca da resistência dos corpos sólidos ao serem rompidos”) e suas causas, que ultrapassava as artes mecânicas um tanto aproximativas dos tratados anteriores. Galileu também apresenta a ciência “dei movimenti locali, cioè dell’equabile, del naturalmente accelerato” (“dos movimentos locais, isto é, do [movimento] uniforme e do [movimento] naturalmente acelerado”), ou seja, os princípios da dinâmica e da aceleração uniforme, e “del violento, o vero de i proietti” (“do [movimento] violento, ou dos projéteis”), isto é, a primeira teoria matemático-geométrica aplicada a projéteis. Até então, ciências em sentido estrito, isto é, ciências demonstrativas, estavam voltadas a discussões teóricas afastadas de questões práticas, e em grande parte eram feitas a partir de leituras, interpretações e infindáveis controvérsias em torno de textos aristotélicos. Agora, as novas ciências dependiam de artes mecânicas, que eram tornadas ciências mecânicas ao serem tratadas matematicamente e terem consequências práticas, as quais podiam ser avaliadas por sua utilidade e eficiência. Galileu mostrava de modo claro a atitude não mais contemplativa, mas ativa do homem face à natureza típica do período em questão, continuando os esforços de Leonardo da Vinci e Niccolò Tartaglia, entre tantos outros. Leonardo, de fato, escrevera que “la meccanica è il paradiso delle scienze matematiche, perchè con quella si viene al frutto matematico” (“a mecânica é o paraíso das ciências matemáticas, pois com ela se chega ao fruto da matemática”), e Tartaglia, no prefácio de seu General trattato di numeri et misure (Tratado geral de números e medidas), dissera de modo um tanto ambíguo que “che quanto piu la parte speculatiua ecceda di nobilta la parte operatiua, tanto piu la parte operatiua ecceda, non solamente di utilita, la parte speculatiua, ma anchora di laude, perche, como dice M. Tullio nel primo de officis, ogni laude della uirtu consiste nell’attione, ouer operatione” (“quanto mais a parte especulativa exceda em nobreza a parte operativa [da filosofia], tanto mais a parte operativa excede a parte especulativa não somente em utilidade, mas ainda em louvores, porque como disse Marco Tulio [Cícero] no primeiro livro Dos ofícios, todo o louvor da virtude consiste na ação ou operação”). Parafraseando um famoso filósofo, as mecânicas sem a mecânica são cegas, e mecânica sem as mecânicas é vazia.

Ainda em Pádua, Galileu também se ocupou da construção de instrumentos, entre os quais o compasso geométrico-militar, instrumento que servia para cálculos de operações geométricas e aritméticas usando proporções entre lados homólogos de dois triângulos semelhantes, apontando outra vez para fins úteis. Também ao aperfeiçoar a luneta em 1609, Galileu aproximou artes mecânicas e óptica geométrica. Não se sabe se Galileu utilizou conhecimentos teóricos ou aperfeiçoou a luneta por tentativa e erro, mas na época já existiam teorias que explicavam como a luneta funcionava, especialmente em obras de Johannes Kepler, dando assim razões para as novas observações. De qualquer modo, ele a ofereceu à Sereníssima República de Veneza por sua utilidade, e então utilizou-a como um instrumento para fazer observações controladas e sistemáticas dos céus, conforme ele relata no Sidereus nuncius, abrindo caminho para a dissolução das concepções antigas a respeito do cosmos e para a defesa do copernicanismo. Aliás, ao ilustrar o Sidereus nuncius Galileu também aproximou artes do desenho e da estampa à nova física dos céus, seguindo uma tradição de ilustrações para filosofia natural que começara também no século XV na Itália. Por fim, após o Sidereus nuncius, Galileu publicou sobretudo em italiano, aproximando a arte da retórica e a nova física, em especial no Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo), criando um gênero novo que foi aptamente chamado por Tommaso Campanella de “commedia filosofica”. Em suma, Galileu soube concentrar em suas obras lições de filósofos, humanistas e artífices do período, mostrando como naquele período diversas formas de conhecimentos práticos e teóricos podiam existir conjuntamente e, assim, formar o mundo moderno.

O nome La fabrica delli strumenti vem do começo do pequeno tratado a respeito do compasso geométrico-militar, publicado em 1606, que Galileu produzia em sua oficina. No prefácio, após escrever a respeito dos, “preziosi frutti di queste scienze [matematiche] per l’uso civile e militare” (“preciosos frutos dessas ciências matemáticas para uso civil e militar”), Galileu diz:

Aggiugnesi che il tacere io la fabrica dello Strumento, la quale per la lunga e laboriosa sua descrizione e per altri rispetti al presente pretermetto, renderà questo trattato del tutto inutile a chi senza lo Strumento ei pervenisse nelle mani. E per tal causa ne ho io fatte stampare appresso di me 60 copie sole, per presentarne insieme con lo Strumento.

Adicione-se que se eu parasse a fábrica do Instrumento, a qual por longa e laboriosa descrição e por outras questões evito, faria este tratado de todo inútil a quem sem o instrumento ele caísse em mãos. E por esta razão publiquei aqui apenas 60 cópias para apresentar junto com o instrumento.

A palavra “strumento” vem do latim “instrumentum”, que significa instrumento, implemento, utensílio ou ferramenta, que por sua vez vem do verbo “instruo”, construir, edificar e elevar, e também organizar, prover e ensinar. Aqui, tomo liberdade de expandir o sentido de “strumento” para “instrumentos de conhecer”. Galileu forneceu não apenas um instrumento específico para fazer cálculos, mas também novos instrumentos experimentais e matemáticos para conhecer e operar. Tendo isso, o grupo visa pensar formas de conhecimento práticas e teóricas e suas relações, questão própria do Renascimento e superfície de questões ainda mais amplas, ou seja, o background cívico-religioso que descrevo brevemente no post anterior, que de resto vinha dos antigos. Não custa lembrar o fundo em questão, ou seja, que “we are bodies born from other bodies, bodies feeding other bodies, bodies having sex with other bodies etc.”, que de um modo ou de outro um dia será central em meus estudos. Aliás, no fim da primeira jornada do Diálogo, após discutir questões a respeito da perfeição dos céus defendida por filósofos aristotélicos como Simplício, Sagredo faz um comentário surpreendente:

Questi che esaltano tanto l’incorruttibilità, l’inalterabilità, etc., credo che si riduchino a dir queste cose per il desiderio grande di campare assai e per il terrore che hanno della morte; e non considerano che quando gli uomini fussero immortali, a loro non toccava a venire al mondo. Questi meriterebbero d’incontrarsi in un capo di Medusa, che gli trasmutasse in istatue di diaspro o di diamante, per diventar piú perfetti che non sono.

Estes que exaltam tanto a incorruptibilidade, a inalterabilidade etc., creio que se limitam a dizer essas coisas por grande desejo de viver muito e pelo terror que têm da morte; e não consideram que, se os homens fossem imortais, a eles não caberia vir ao mundo. Estes mereceriam encontrar uma cabeça de Medusa, que os transformasse em estátuas de jaspe ou diamante para torná-los mais perfeitos como não são.

IV. O grupo de estudos de que fiz parte na época de doutorado tinha um projeto que esboçava ideias amplas a respeito de história e filosofia da ciência. Entretanto, o projeto não contemplava estudos sistemáticos a respeito de vocabulários, conceitos e questões dos períodos que propunha tratar. Falava-se palavras como “ciência” e “filosofia” sem especificar os conceitos a que se referiam conforme fontes de época, e falava-se anacronicamente de artistas e cientistas na época de Galileu. Além de desconhecimento de fontes, os anacronismos tinham origem na falta de distinção entre filosofia e história da filosofia, assunto que, tanto quanto recordo, não era discutido. As reuniões periódicas serviam para discutir textos de história e filosofia da ciência e também textos de participantes do grupo. Funcionava, mas cada qual seguia sua própria pesquisa. Isso me fazia pensar a respeito de como pesquisas em humanidades eram solitárias e ineficientes.

Proponho estudar diversamente. Primeiro, seguindo as linhas gerais descritas no post anterior, no ano passado lemos e traduzimos diversos prefácios para conhecer e incorporar vocabulários da época que estudamos em nossos modos de pensar, falar e escrever. Neste ano, continuaremos a dar passos para trás, por assim dizer, para avançar. Chamar Leonardo da Vinci de artista e Galileu de cientista não causa espanto, mas de artífice e filósofo sim, pois talvez faça pensar que eles faziam parte de um mundo significativamente diverso de nosso mundo contemporâneo. A premissa básica talvez seja surpreender-se lendo palavras comuns usadas de muitos modos cotidianamente. Vale dizer que há um ano apenas tirei a palavra “cultura” de meus textos históricos. Hoje, escrevo “civiltà”, palavra italiana do século XIII que remete a tradições, ideias, organizações políticas e conjunto de valores de um povo em um dado território, sobretudo citadino, como sugere a palavra “civitas” na origem de “civiltà”. “Urbanidade” talvez seja uma boa opção para traduzir “civiltà”, pois remete a “urbs”, ou melhor, ao estado de ser urbano ou citadino de um dado povo em oposição ao campo. Entretanto, neste momento mantenho a palavra italiana “civiltà” grafada em itálico. Não obstante proximidades entre civiltà e cultura, assim evito referências a dois conceitos vindos do século XIX formulados por Matthew Arnold, em Culture and Anarchy, e Edward Burnett Tylor, em Primitive Culture. Segundo, tendo vocabulários, conceitos e questões comuns, podemos aproximar pesquisas de modo inédito. Assim, quem estuda questões a respeito dos artífices do século XV, por exemplo, relaciona-se diretamente com quem estuda questões mecânicas que esta na obra de Galileu. Aliás, quando vejo os relevos do Campanile em Florença, que celebram publicamente as diversas artes que faziam a Florença de meados do século XIV, em geral estudados por historiadores da arte, faço relações diretas com questões galileanas, em geral tratadas por historiadores e filósofos da ciência. Temos montado uma cultura comum, no sentido de nossos modos de pensar, falar e escrever. As linhas gerais do grupo visam simplificar e tirar obstáculos acadêmicos, que não raro atrapalham leituras de fontes. Terceiro, se temos um ponto de partida relativamente original, também temos um ponto de chegada. Considero editar um livro daqui a quatro ou cinco anos que terá textos escritos pelos participantes do grupo, do qual serei editor junto com dois ou três colegas. Paralelamente, penso a respeito de uma página na internet para apresentar e discutir questões, fazer entrevistas com colegas, manter bibliografias atualizadas e muito mais. Talvez assim sejamos menos solitários e mais eficientes em nossos estudos acadêmicos.

Neste momento, temos pesquisas a respeito de artífices no século XV, de Leonardo da Vinci como anatomista e como artífice de máquinas, Copérnico e a “nova razão do mundo”, duas pesquisas a respeito de Benedetto Varchi e outra a respeito da luneta de Galileu. Temos ainda diversas lacunas nas áreas que espero tratar, como um estudos a respeito dos relevos do Campanile de Florença, de Niccolò Tartaglia e de questões galileanas. Espero em breve receber novos alunos.

V. O grupo de estudos funciona como uma espécie de “experimento” para elaborar conceitos e questões amplas do período em torno de Galileu, base das pesquisas específicas de cada um. Nesse sentido, estudar conceitos e questões amplas talvez seja como encontrar pontos de referência e o desenho amplo do mapa da cidade em que se está, de modo que se possa se mover através dela seguramente, ou no mínimo sem errar repetidamente. Sendo preciso, estudar conceitos e classificações de saberes visa definir conceitos básicos e suas relações, e também relações entre eles e conceitos subordinados. Conceitos básicos apontam para questões amplas de um dado período, que por sua vez articulam conceitos e questões específicas. Imagino que quem me lê não coloca isso em questão. Estar perdido em uma cidade qualquer incomoda, pois nossa sobrevivência imediata fica ameaçada e restringimo-nos a poucos caminhos já conhecidos. Semelhantemente, não entender palavras que percebemos como centrais para entender questões que consideramos importantes nos deixa pouco capazes de reagir e interagir, e fechamo-nos intelectual e afetivamente.

Inovar requer esforços contínuos e aceitação contínua de erros. Além disso, os contextos sociais em que vivemos funcionam em redes que resistem a mudanças. Como diz o neurocientista Olaf Sporns, “networks are examples of complex systems, with highly structured connectivity patterns, multiscale organization, nonlinear dynamics, and the capacity for self-organization that gives rise to collective or group phenomena”, que são “resilient to external challenges”. Os processos em questão são imbricados uns nos outros, e mudanças em um de seus elementos automaticamente desencadeia resistências em diversos outros. Mudar requer mudanças coordenadas entre si para que elas próprias sejam viáveis. No momento, o tipo de pesquisa que fazemos não tem um nicho acadêmico próprio, e talvez não seja estranho que quem a coordena é por um tipo que veio a ser professor de filosofia um tanto ao acaso. Entretanto, parece que faz algum sentido, sobretudo devido ao uso sistemático e metódico que fazemos de fontes de época.

Temos um vasto campo a explorar, e diversão erudita não nos faltará nos próximos anos. Há poucos dias li uma matéria divertidíssima a respeito de entropia chamada Entropy Explained, with Sheep, do físico e divulgador Aatish Bhatia. Em seu perfil no Twitter, ele diz: “Trying to make the most of a brief time in a wondrous universe.” Aliás, isso não é frase que professor de filosofia cita, certo?

De Florença

Círculo de Bernardo Daddi. Madona da Misericórdia: Detalhe mostrando Florença. Afresco, 1342. Loggia del Bigallo, Florença.

De Florença

Eduardo Kickhöfel

I. Academicamente, o ano passado foi ótimo devido a elaboração inédita de certas ideias, especialmente no segundo semestre. Estou no fim de uma longa pesquisa que dura mais de quinze anos, que visa editar os estudos de anatomia de Leonardo da Vinci, e no começo de um projeto que inclui ciências naturais chamado Brain, Knowledge and Culture, que talvez me acompanhe até o fim de meus dias. Pessoalmente, sofri duas grandes perdas, a segunda mais intensa do que a primeira, mas espero que de ambas eu tenha aprendido noções importantes a respeito de minha vida. Entre mortes inevitáveis e amores perdidos, penso diariamente, estão as questões mais importantes. Adicione-se a isso minha usual desorganização e falta de senso prático, e eis este blog abandonado de novo. Shame on me!

II. Estou em Florença outra vez, agora para terminar artigos e minha edição dos estudos de anatomia de Leonardo da Vinci. Após vinte anos de estudos, consigo definir as linhas gerais de minhas investigações. Eis um resumo de como elaboro um framework para entender Leonardo e, tema de meu atual grupo de estudos, Galileu Galilei.

Primeiro, como já escrevi aqui, faço distinção entre filosofia e história da filosofia. Quando se estuda fontes de época, existem duas opções principais. A primeira visa fazer história da filosofia, ou seja, estudar fontes considerando vocabulários, conceitos e questões do contexto em que tais e tais fontes foram escritas. Esta é a tarefa de acadêmicos, e talvez assim eles possam supor como tais e tais filósofos pensaram tais e tais questões em seus respectivos períodos históricos. A segunda visa fazer filosofia, ou seja, estudar fontes para pensar vocabulários, conceitos e questões da época em que se estuda tais e tais fontes. Esta é a tarefa de filósofos, que visam pensar explicitamente questões de seus próprios períodos. Para que isso fique claro, recordo livros como The Cambridge Companion to Galileo, editado por Peter Machamer, e Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie, de Edmund Husserl. Os acadêmicos que escreveram o The Cambridge Companion estavam interessados entender a formação da nova física, mas ao escrever Die Krisis Husserl considerava questões a respeito da ciência moderna na Europa pouco antes da Segunda Grande Guerra. Sendo preciso, não existe distinção clara e distinta entre história da filosofia e filosofia. Ernst Cassirer fez história da filosofia tingida por sua filosofia neokantiana, e fez sua filosofia neokantiana a partir do vasto conhecimento que tinha da história da filosofia (e tantos outros conhecimentos). Em uma espécie de terceira via, Cassirer fez interpretações filosóficas da história da filosofia. Entretanto, e não obstante inúmeros outros matizes, a distinção entre história da filosofia e filosofia torna claros vocabulários, conceitos e questões de nossos próprios estudos. Em meu caso, viso fazer história da filosofia, embora hoje eu me pense como historiador das ideias, como explico a seguir, e por hora divido minhas especulações privadamente. Seja como for, sei que sou inevitavelmente anacrônico em relação ao período que estudo, e recordo aqui Nikolaus Harnoncourt a respeito de interpretações históricas de música barroca: “Certes nous ne savons pas exactement comment c’était, mais nous savons très exactement comment ce n’était pas.” Eis um bom começo, certo

Segundo, parto de definições de termos básicos para que eu pense, fale e escreva sem incômodas sensações de ter notas de rodapé vazias. Busco saber como uso certas palavras centrais em certos discursos para que eu saiba a que conceitos fazem referência. Não proponho novidade alguma, de fato, mas apenas sigo autores do período que estudo. Por exemplo, eis uma passagem do Libro della vita civile, escrito por Matteo Palmieri por volta de 1430 (Palmieri, 1529, p. 28v): “Tosto si conoscerà il primo segno dell’animo bene composto essere stare fermo, & seco medesimo non deuiando da i primi ingegni, considerare, et riuolgere i termini fondamentali di qualunche scienza, o, arte, & a quegli con ogni decto & facto, conrispondere, sappiendo che ogn’altra uia è uaga, & instabile, & sanza fructo.” (“Rápido conhecer-se-á o primeiro sinal de uma alma bem composta quando ela está firme e consigo mesma, não desviando dos primeiros engenhos, se ela considera e volta-se aos termos fundamentais de qualquer ciência ou arte, a cada dito e fato correspondendo, e sabe que qualquer outa via é vaga, instável e sem fruto.”) Benedetto Varchi, no começo da segunda das Due lezzioni, publicadas em 1549, escreve (Varchi, 1859, p. 628): “In ciascuna disputa si debbe la prima cosa, per fuggire l’equivocazione e scambiamento dei nomi, dichiarare i termini principali.” (“Em cada disputa se deve, para fugir a equívocos e trocas de nomes, declarar os termos principais.”)

Terceiro, uso divisões da filosofia escritas e publicadas na época. Palavras remetem a conceitos, que por sua vez remetem a divisões de conhecimentos mais ou menos explícitas. Busco relações entre formas de conhecimento, sobretudo artes e ciências. Por exemplo, em um texto chamado Dei prolegomeni o precognizioni, Varchi (1859, p. 808) escreve: “Se la filosofia ha per obbietto tutto l’ente, cio è comprende tutte le cose di tutto l’universo, chiara cosa è che non si può ritrovare cosa alcuna in luogo veruno, la quale non caggia sotto la Filosofia; la quale fu divisa da alcuni in tre parte, da alcuni in due. Ma perchè cotale divisione è stata fatta e dichiarata da noi più volte, ci rimetteremo a quelle divisioni, e diremo solamente, che nel principio di tutte l’opere, si deve dichiarare se la materia che in cotal libro si tratta è scienza o arte.” (“Se a filosofia tem por objeto todo o ente, isto é, compreende todas as coisas do universo, clara coisa é que não se pode encontrar em lugar nenhum alguma coisa que não esteja sob a Filosofia, a qual foi dividida por alguns em três partes, e por outros em duas. Mas porque tal divisão foi feita e declarada por nós diversas vezes, remetemo-nos àquelas divisões, e aqui dizemos apenas que, no princípio de todas as obras, se deve declarar se a matéria de tal livro trata de ciência ou arte.”)

Quarto, considero questões amplas do período em questão. Dou especial atenção a novos valores dados à vita activa e às artes, em oposição à vita contemplativa dos antigos e, principalmente, medievais. Naquele contexto histórico, aproximações entre artes e ciências foram centrais, de Francesco Petrarca a Galileu Galilei.

Em princípio, faço história da ciência. Ao menos, assim se fala em departamentos de filosofia, talvez para separar história da ciência e história da filosofia. Entretanto, desse modo assume-se uma distinção entre ciência e filosofia que não existia no Renascimento. Posso pensar que faço história da filosofia, especificamente, história da filosofia natural. Entretanto, a palavra “filosofia” no Renascimento era usada no sentido de conhecimento, como diz Gregor Reisch em seu livro Margarita philosophica (1503, f. 4v): “Philosophia est divinarum humanarumque rerum cognitio cum studio bene vivendi coniuncta.” (“Filosofia é conhecimento das coisas divinas e humanas juntamente com o estudo do bem viver.”) Hoje, não custa escrever, usa-se a palavra “filosofia” para denotar conjuntos de doutrinas de certos filósofos (filosofia aristotélica e filosofia kantiana), tradições históricas consolidadas (filosofia grega e filosofia moderna) e escolas (filosofia analítica e filosofia continental). Se faço história da filosofia no sentido em que filosofia era compreendida na época, receio não ser compreendido como quero, justamente porque em geral assume-se tacitamente sentidos contemporâneos de filosofia. Talvez eu faça história das ideias, mais abrangente que a história da filosofia, embora história do conhecimento soe um tanto neutra e talvez sirva a meus presentes propósitos.

III. Estudo relações entre artes e ciências, nos sentidos amplos de conhecimentos teóricos e conhecimentos práticos. Entretanto, sei que esses conceitos existiam em função de um background cívico-religioso. Escrevo a seguir exemplos de Florença, mas as palavras a seguir valem para outras cidades italianas do período. Em relação a questões religiosas, artífices erguiam igrejas e pintavam afrescos, descrevendo histórias e doutrinas sagradas, como mostra o imenso corpus de pinturas, esculturas e outros objetos feitos durante o Renascimento. Eles também celebravam diretamente a vida religiosa da cidade, como no caso do afresco La Chiesa militante e trionfante, executado entre 1365 e 1367 por Andrea da Bonaiuto no Cappellone degli Spagnoli da basílica de Santa Maria Novella. Em relação a questões cívicas, artífices construíam e decoravam palazzi, como mostram inúmeros edifícios renascentistas em Florença. Eles também celebravam diretamente a vida cívica da cidade, como sugerem as encomendas das pinturas a Leonardo da Vinci e Michelangelo no começo do século XVI para decorar a Sala del Gran Consiglio do então Palazzo della Signoria, respectivamente a Bataglia di Anghiari e a Bataglia di Cascina. A partir de um certo momento, certas artes foram sistematizadas com elementos de certas ciências, como por exemplo a arte da pintura no começo do século XV por Filippo Brunelleschi e Leon Battista Alberti, e as mecânicas no século seguinte por Niccolò Tartaglia e Guidobaldo del Monte, entre outros matemáticos. Usos religiosos e políticos da retórica, uma arte desde os antigos, faziam parte desse contexto. Aliás, ciências não só sistematizavam artes, mas também davam fundamentos a questões religiosas. Na tradição tomista, por exemplo, a teologia era uma ciência em sentido demonstrativo. Nos termos da partição da filosofia de Gregor Reisch, a parte divinamente inspirada da filosofia precisava da parte humanamente conquistada, entre outras. Suspeito que o eixo central era sobretudo religioso, como sugere o afresco Il Trionfo di San Tommaso d’Aquino no Cappellone e as divisões da filosofia já mostradas neste blog. De qualquer modo, naquela época vida religiosa e vida cívica estavam intimamente relacionadas. No centro religioso da cidade, os relevos do Campanile celebram artes e ciências tanto religiosas como cívicas. A narrativa começa com a criação de Adão, e após seguem-se as artes e ciências que, efetivamente, faziam Florença em meados do século XIV. No Duomo, estão afrescos de Paolo Uccello e Andrea del Castagno que celebram John Hawkwood e Niccolò da Tolentino, respectivamente, condottieri que serviram a República Florentina. No centro cívico de Florença, por sua vez, lê-se sobre a porta principal do Palazzo Vecchio YHS Rex Regum et Dominum Dominantium, colocada por ordens de Cosimo I de’ Medici em 1551, duque da Toscana, em substituição a uma inscrição prévia de Girolamo Savonarola, que possivelmente dizia Jesus Christus rex florentini populi S.P. decreto electus. O melhor exemplo talvez seja Orsanmichele, originalmente uma loggia que servia como mercado de grãos erguido por Arnolfo de Cambio por volta de 1290, que logo se tornou lugar de devoção devido a uma imagem da Virgem pintada sobre um de seus pilares. Após um severo incêndio, a loggia foi reconstruída em entre 1337 e 1349. Tendo um imenso altar, por volta de 1357 a loggia não podia mais funcionar como mercado, que foi transferido para outro lugar, e por volta de 1380 foi fechada para ser a igreja tal qual existe hoje e, supreendentemente, dois andares foram adicionados para servir como armazém de grãos para épocas de fome e cercos. Pronta em 1404, Orsanmichele foi decorada por tabernáculos que representam os santos das principais corporações, sendo um monumento cívico-religioso único em Florença. Por hora, minhas pesquisas a respeito de Leonardo e Galileu não requerem que eu investigue esse background em detalhes, mas um dia talvez eu tenha de ver o leão de frente. Talvez, mas tenho lentamente me direcionado para outras questões, inclusive visualizar relações entre formas de conhecimento utilizando recursos digitais.

IV. Visito igrejas diariamente, e cada uma delas me sugere pensamentos específicos. Entretanto, penso principalmente a respeito das coisas que homens fazem porque não querem morrer, porque querem amar. Os homens do passado fizeram coisas não apenas diretamente úteis como alimentos, roupas e abrigos. Eles inventaram mitos de criação do mundo e de si próprios, e contaram histórias de homens que ressuscitaram e santos que sofreram martírios atrozes; elaboraram ritos e ofícios religiosos, escreveram teologias e suas infindáveis controvérsias; fizeram pinturas e esculturas, músicas e poemas dos mais diversos tipos. As sepulturas, mais ou menos ornamentadas, mostravam o fim óbvio de cada um, mas também apontavam para anseios por salvação individual e pelo amor de uma divindade que as protegia e que perdoava seus pecados. Quando estou em Santa Maria del Fiore, penso que erguer aquela igreja requeria muitas artes e ciências em um contexto cívico-religioso único, que só ocorreu nesta cidade. Então, tento imaginar quanto sofrimento e quanta esperança estão lá depositados, quantos medos de morrer e desejos por amar. Lá, recordo frequentemente o Cantus in Memory of Benjamin Britten, de Arvo Pärt, e às vezes meus olhos ficam cheios de lágrimas. “Love is a sunshine mixed with rain”, escreveu Sir Walter Raleigh. Também vejo turistas que seguem obedientemente seus guias, fazendo fotos tolas de objetos que possivelmente não entendem. Talvez busquem formas de beleza, talvez restos de ilusões de eternidade sem o saber. Então, penso a respeito de meus esforços, talvez tão tolos quanto aquelas fotos, e recordo de que um dia morrerei, mas que antes disso quero amar. Há alguns anos, leio livros de primatologia, e Frans de Waal, em Our Inner Ape, acerta a questão básica: “The reality is that we are bodies born from other bodies, bodies feeding other bodies, bodies having sex with other bodies, bodies seeking a shoulder to lean or cry on, bodies traveling long distances to be close to other bodies, and so on. Would life be worth living without these connections and the emotions they arouse?” A vida é curta, e a cada dia que passa penso a respeito de organizar meus estudos em torno de questões básicas como essas, estudos não só de história das ideias e de ciências naturais, mas também das palavras de grandes poetas.

V. Isto posto, neste mês publicarei aqui os resumos dos dois projetos em que estou envolvido. O primeiro diz respeito a meu grupo de estudos a respeito de Galileu, que está ativo há mais de um ano. O segundo, uma derivação surgida em discussões, trata de uma edição de prefácios renascentistas. A partir de março, se meus planos correrem como imagino, publicarei notas de um curso a respeito de Copérnico e a “nova razão do mundo”. Aliás, recentemente participei de uma entrevista a respeito da revolução copernicana que em breve estará disponível na página Estado da Arte.

Referências bibliográficas

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Vincenzo Catena. São Jerônimo em seu estúdio. Óleo sobre tela, 75.9 x 98.4 cm, circa 1510. The National Gallery, Londres.

Referências bibliográficas

Eduardo Kickhöfel

I. Os dois posts anteriores apontam para minha porta de entrada ao Renascimento, por assim dizer. De certa forma, sigo Benedetto Varchi ao falar da importância de definir os “termos principais” antes de qualquer disputa e de pensar “sob que parte da filosofia se coloca o assunto de que se escreve”.

Resta dizer que no Renascimento a palavra “arte” também era usada no sentido de ofício ou profissão, como sugere o pintor Cennino Cennini em seu tratado Libro dell’arte (Livro da arte), por ele escrito por volta de 1400. No primeiro parágrafo, ele escreve que Giotto “teve a arte mais completa que nenhum outro tivera”, ou seja, tivera conhecimentos práticos inéditos para pintar “conforme a natureza”, como se dizia na época. Citando outra vez Benedetto Varchi, arte era “um hábito de fazer com verdadeira razão”. Cennino também escreve que era um “pequeno membro exercitante na arte da pintura”, ou seja, membro do ofício ou da profissão da pintura. Esses dois sentidos vinham dos antigos, conforme mostram dicionários gregos. O Greek–English Lexicon de Liddell e Scott define “technê” como “art, skill, craft in workmanship, cunning of hand”, “an art, craft, trade” e “an art or craft, a set of rules or regular method of making or doing”. O Dictionnaire Étymologique de Chantraine define “technê” semelhantemente, isto é, “savoir-faire dans un métier” e “métier, technique, art”. No começo da Metafísica, Aristóteles remete às “discussões éticas”, ou seja, aos livros que hoje compõem a Ética nicomaqueia, mas em certas passagens pode-se pensar “technê” como ofício ou profissão.

Resta também dizer que, no contexto acadêmico contemporâneo, a palavra “arte” significa sobretudo obra de arte. Quando se usa essa palavra hoje, pensa-se a respeito de obras de arte, ou seja, certos objetos considerados e apreciados sobretudo por suas qualidades estético-formais, independentemente de terem sido concebidos como tais, como no caso de obras anteriores ao Romantismo e também de objetos feitos em culturas não ocidentais. Basta recordar museus como o Museu de Arte de São Paulo e o Metropolitan Museum of Art, por exemplo, ou então o título de um livro como História da arte do Renascimento, que significa história das obras de arte do Renascimento.

Em suma, pintores como Giotto e Cennini tinham artes e, assim, podiam exercer a profissão de artífice seguindo encomendas e contratos. Hoje, pintores como Gerhard Richter fazem arte, isto é, fazem obras de arte, e ao expressarem suas respectivas subjetividades são reconhecidos como artistas.

II. Isto posto, alguns parágrafos dos dois posts prévios vêm de um artigo chamado “A Philosophiae partitio de Gregor Reisch”, recentemente publicado. Lá, inclusive, mostro e analiso outras gravuras do livro de Gregor Reisch. Aliás, aproveito este post para anotar um erro. Na página 125, está escrito: “Como entender um período em que um escritor, ao introduzir ‘um soneto de M. Michelangelo Buonarroti’ em meados do século XVI, deixa clara a respeito da inferioridade das artes em relação às ciências?” A passagem correta seria: “Como entender um período em que um escritor, ao introduzir uma disputa a respeito das artes em meados do século XVI, deixa claro a inferioridade das artes em relação às ciências?” Quem escreve artigos sabe que, não obstante dezenas de revisões, erros são criaturas que insistem em permanecer.

Não sou estudioso do estagirita, e estudo seus textos em função das questões renascentistas que me interessam. As passagens de Aristóteles que cito vêm da tradução de Lucas Angioni, e uso também as edições de W. David Ross e Jonathan Barnes. Também uso o Cambridge Companion editado por Jonathan Barnes e verbetes da Stanford Encyclopedia of Philosophy, entre outros textos. As outras fontes que cito nos dois posts também estão mencionadas abaixo. Reisch está disponível em diversas edições em diversas páginas, como no Internet Archive, Munich Digitization Center e e-rara. Varchi está disponível no Internet Archive. Cennini, citado acima, também está disponível na internet em uma edição antiga na página Liber Liber, ainda apropriada para um primeiro contato. Após, anoto as referências dos textos de Bianchi, Kuhn e Wallace, e também os textos que uso a respeito de classificações das ciências até o Renascimento.

Fontes

ARISTÓTELES. Metafísica. Livros I, II e III. Tradução, introdução e notas [de] Lucas Angioni. Campinas: IFCH Unicamp, 2008.

ARISTOTLE. Metaphysics. A revised text with introduction and commentary by W. David Ross. Oxford: Oxford University Press, 1975.

______. The Complete Works of Aristotle. Edited by Jonathan Barnes. Princeton: Princeton University Press, 1984.

CENNINI, C. Il libro dell’arte. Ed. a cura di Fabio Frezzato. Vicenza: Neri Pozza Editore, 2003.

REISCH, G. Margarita philosophica. Freiburg im Breisgau: Johannen Schottum, 1503.

VARCHI, B. “Sopra la pittura e scultura: lezione due.” In: RACHELI, A. (Ed.), Opere di Benedetto Varchi. Trieste: Sezione Letterario-Artistica del Lloyd Austriaco, 1859, v. 2, p. 611-647.

______. “Divisione della filosofia.” In: RACHELI, A. (Ed.), Opere di Benedetto Varchi. Trieste: Sezione Letterario-Artistica del Lloyd Austriaco, 1859, v. 2, p. 794-796.

Estudos

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BIANCHI, L. “Continuity and change in the Aristotelian tradition.” In: Hankins, J. (Ed.), The Cambridge Companion to Renaissance Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 49-71.

KRISTELLER, P. O. “The modern system of the arts: a study in the history of aesthetics Part I.” Journal of the History of Ideas, vol. 12 (1951), no. 4, p. 496-527.

______. “The modern system of the arts: a study in the history of aesthetics Part II.” Journal of the History of Ideas, vol. 13 (1952), no. 1, p. 17-46.

KUHN, H. “Aristotelianism in the Renaissance.” In: Zalta, E. N. (Ed.), The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2016 Edition).

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“Favellando aristotelicamente”

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Gregor Reisch. Philosophiae partitio. Friburgi, 1503. Universitätsbibliothek Freiburg.

Favellando aristotelicamente

Eduardo Kickhöfel

I. Aristóteles foi o filósofo mais lido e comentado no Renascimento. Segundo Heinrich Kuhn, Richard Blum contou 6635 comentários escritos entre os anos 1500 e 1650, que por sua vez escreve: “It is an astonishing fact that the number of Latin Aristotle commentaries composed in this brief span exceeds that of the entire millennium from Boethius to Pomponazzi.” Nesse sentido, Luca Bianchi comenta: “If the greatest intellectual novelty of the Renaissance was the rediscovery of little-known and forgotten philosophical traditions, Aristotelianism nevertheless remained the predominant one through the end of the sixteenth and into the seventeenth century. More than three thousand editions of his works were published between the invention of printing and 1600, of which hundreds date from the fifteenth century; by way of comparison, there were only fourteen incunables containing works of Plato. As for commentaries, there are at least twenty times more on Aristotle than on the dialogues of Plato.” Não obstante uma importante tradição de estudos que durante décadas tratou o Renascimento como um período sobretudo neoplatônico, as fontes mostram a influência do filósofo de Estagira nos conceitos e nas classificações de saberes. As condenações do livro de Nicolau Copérnico em 1616 e de Galileu Galilei em 1633 apontam diretamente para essa ideia. Então, continuemos nossas matérias, como escreveu Benedetto Varchi, “conversando aristotelicamente”.

II. Aristóteles discutiu meticulosamente conceitos, sendo inclusive o quinto livro da Metafísica uma espécie de léxico filosófico aristotélico. Entretanto, poucas são as menções a classificações das ciências no corpus de textos existente. Coube aos medievais dedicarem-se a elas. Para eles, era importante não apenas esclarecer conceitos básicos, mas sim as relações entre eles e também entre eles e conceitos subordinados. Entre os medievais, talvez a classificação mais conhecida esteja no Didascalicon de Hugo de São Vitor: “A filosofia (philosophia) é dividida em teórica, prática, mecânica e lógica; estas quatro partes contêm toda a ciência (scientiam).” A parte teórica estava subdividida em metafísica, matemática e física; a parte prática, em ética, economia e política; e a parte mecânica, nas diversas artes para as utilidades e para os divertimentos. Isso corresponde à divisão tripartida de Aristóteles, que também pode ser pensada como bipartida, como está escrito no post anterior. Seguindo autores que o precediam, Hugo coloca as disciplinas do Quadrivium sob a matemática, em uma tentativa de conciliar os currículos romanos com classificações de saberes vindas dos gregos. A novidade está no tratamento dado às artes mecânicas, talvez um prenúncio ao novo valor dado à vita activa e às artes no Renascimento. Hugo também elenca a lógica como parte da filosofia, ou seja, as disciplinas do Trivium. Vale dizer que Aristóteles não menciona o lugar da lógica em seus textos, mas em geral ela foi compreendida como um instrumento para a filosofia, não obstante diversas variações. De qualquer modo, por volta de 1255 Vicente de Beauvais listou oito classificações de saberes em seu Speculum doctrinale (Espelho doutrinal) sem decidir qual a mais apropriada: Aristóteles, Agostinho, Isidoro de Sevilha, Al-Farabi, Avicebron, Hugo de São Vítor, Ricardo de São Vítor e Miguel Scotus.

III. No Renascimento, dezenas de filósofos e humanistas também se dedicaram às classificações de saberes. Publicado pela primeira vez em Freiburg em 1503, o livro de Gregor Reisch Margarita philosophica (Margarida filosófica) teve inúmeras reedições em diversas cidades europeias (1504, 1508, 1512, 1515, 1517, 1535, 1583 e 1599, entre outras), sugerindo sua importância na cultura letrada renascentista. Não é um livro que contém ideias originais, mas sim uma enciclopédia que resume as matérias que jovens estudantes tinham de saber para iniciar seus estudos universitários. Logo no início desse livro, Reisch mostra a Philosophia partitio, ou seja, a partição da filosofia, ilustrada acima.

A filosofia é a forma de conhecimento mais ampla que visa as coisas divinas e humanas conjuntamente com o estudo do viver bem: “Philosophia est divinarum humanarumque rerum cognitio cum studio bene vivendi coniuncta.” Reisch divide a filosofia (Philosophia) em teórica (Theorica[m] sive speculativam) e prática (Practicam). Eis a divisão bipartida básica dos antigos, já comentada. A parte teórica está dividida em real (Realis) e racional (R[ati]ona[lis]). A parte real contém as ciências teóricas da tradição aristotélica, ou seja, metafísica (Metaphisicam), centrada sobre o ser em geral abstraído de sua materialidade; matemática (Mathem[at]icam), que trata das abstrações quantitativas e aqui na forma das disciplinas do Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música); e física (Phisicam sive [philosophiam] naturalem), que tinha a matéria sensível como objeto de consideração e cujos ensinamentos eram dados principalmente pelos livros naturais de Aristóteles (Física, Do céu, Da geração e corrupção e outros). A parte racional, por sua vez, contém as disciplinas do Trivium (gramática, retórica e lógica). A parte prática, por sua vez, está dividida em ativa (Activa) e produtiva, cujas partes são as artes mecânicas (Facti[v]a, cuius p[arte]s sunt artes Mecha[n]ices). Por fim, a parte ativa está subdividida em ética (Aethica), política (Politica), econômica (Iconomica) e monástica (Monastica). A parte produtiva está dividida em lanifício (Lanificium), arsenal (Armatura), navegação (Navigatio), artes militares (Venatio), medicina (Medicina) e teatro (Theatrica), seguindo diretamente as artes listadas por Hugo de São Vitor.

A Philosophiae partitio expressa uma espécie de koiné aristotélica, uma síntese que mostra como os modelos antigos operavam no Renascimento. Aliás, basta ver a imagem para saber quais disciplinas eram mais valorizadas no âmbito de Gregor Reisch.

IV. Escrito em meados do século XVI, o pequeno texto Divisione della filosofia, do humanista e historiador florentino Benedetto Varchi, também sintetiza questões amplas do Renascimento. Logo no primeiro parágrafo, Varchi escreve:

La Filosofia, la quale è la cognizione di tutte le cose che sono, così umane come divine, ha per soggetto e materia sua l’ente, cio è tutto quello che è; ed in somma tutte le cose così terrene e mortali, come celesti e sempiterne; e perchè l’ente si divide primieramente in due parti, in reale ed in razionale, quinci è che la Filosofia ha due parti: la prima e più nobile, perchè tratta delle cose, si chiama reale; la seconda e manco perfetta, perchè tratta delle parole, si chiama razionale, ciò è verbale, per così dire, o vero sermocinale, ed in somma intenzionale; onde vogliono molti che questa non sia veramente parte di Filosofia, mas organo, ciò è strumento che serva alla Filosofia.

A Filosofia, a qual é a cognição de todas as coisas que existem, humanas ou divinas, tem por objeto e matéria o ente, ou seja, tudo aquilo que existe; e em suma [conhece] tanto todas as coisas terrenas e mortais como [as coisas] celestes e eternas. E porque o ente se divide primeiramente em duas partes, em real e racional, assim a Filosofia tem duas partes: a primeira e mais nobre, porque trata das coisas, se chama real; a segunda e imperfeita, porque trata das palavras, se chama racional, isto é, verbal, por assim dizer, ou ainda artes da palavra, e em suma intencional. Alguns querem que esta não seja verdadeiramente parte da Filosofia, mas órgão, isto é, instrumento que serve à Filosofia.

Varchi, então, elabora sua divisão da filosofia. Na parte real, ele segue a divisão bipartida básica:

La filosofia reale si divide principalmente in due parti: la prima e più nobile si chiama specolativa o vero contemplativa; perchè il suo fine non è altro che specolare e contemplare, ciò è conoscere e sapere la verità delle cose; la seconda parte e meno perfetta si chiama pratica, perchè il fine suo ultimo non è intendere e sapere, ma operare.

A Filosofia real se divide principalmente em duas partes: a primeira e mais nobre se chama especulativa ou contemplativa, porque seu fim não é outro que especular ou contemplar, isto é, conhecer e saber a verdade das coisas. A segunda e menos perfeita parte se chama prática, porque o seu fim último não é entender e saber, mas operar.

Varchi também segue a tradição ao subdividir a parte especulativa ou contemplativa da filosofia:

La Filosofia reale specolativa si divide in tre parti: nella Metafisica, ciò è scienza sopranaturale o vero divina; e questa, perchè tratta di tutte quelle cose le quali sono astratte o vero separate da ogni materia, ciò è di Dio e dell’altre Intelligenze, è nobilissima di tutte l’altre scienze. La seconda si chiama Fisica, ciò è scienza naturale, la quale tratta di tutte quelle cose le quali sono in tutto e per tutto sommerse nella materia, ed in somma di tutte le cose naturali, ciò è fatte dalla natura. La terza ed ultima parte si chiama da un verbo greco, che vuol dire imparare, Matematica; e questa tratta di tutte quelle cose le quali sono parte astratte e libere da ogni materia, e parte sommerse e tuffate nella materia, ciò è che in verità non si truovano se non in cose materiali, e così in quanto all’essenza e natura loro sono materiali, ma si considerano e diffiniscono come se non fussero in materia nessuna; e però quanto alla diffinizione si chiamano immateriali. E queste, ciò è le Matematiche, sono principalmente quattro: Aritmetica, Musica, Geometria, Astrologia o più veramente Astronomia; sotto la quale si contengono molte altre, come Cosmografia, Prospettiva ed altre cotali.

A filosofia real especulativa se divide em três partes: em Metafísica, isto é, ciência sobrenatural ou divina; e esta, porque trata de todas aquelas coisas que são abstratas ou separadas de qualquer matéria, isto é, Deus e as outras inteligências, é a mais nobre de todas as ciências. A segunda se chama Física, isto é, ciência natural, a qual trata de todas aquelas coisas em tudo e por tudo submersas na matéria, e em suma de todas as coisas naturais, isto é, feitas pela natureza. A terceira e última parte se chama por um verbo grego que quer dizer aprender, matemática; e esta trata de todas aquelas coisas que são em parte abstratas e livres de qualquer matéria, e em parte submersas e mergulhadas na matéria, isto é, que em verdade não se encontram se não nas coisas naturais, e assim quanto à essência e natureza são materiais, mas que se consideram e definem como se não fossem em nenhuma matéria; e pela definição se chamam imateriais. E estas, isto é, as Matemáticas, são principalmente quatro: Aritmética, Música, Geometria e Astrologia, ou mais verdadeiramente Astronomia, sob as quais estão muitas outras, como a Cosmografia, a Perspectiva e outras como tais.

As distinções entre as partes da filosofia nesses termos vêm das questões 5 e 6 do comentário de Tomás de Aquino ao De trinitate (Da trindade) de Boécio, no qual Tomás elabora a ideia de scientiae mediae ou seja, as ciências intermediárias entre a física e a matemática. Nesse sentido, na parte matemática Varchi insere as disciplinas do Quadrivium como Reisch fizera, mas adiciona outras disciplinas que na época se utilizavam das matemáticas; em Florença, citar a perspectiva – inclusive a perspectiva para uso dos artífices – como parte da matemática era inevitável devido à tradição que começara com Filippo Brunelleschi e Leon Battista Alberti.

Semelhantemente, Varchi repete a tradição aristotélica ao descrever a parte prática da filosofia, que se divide em duas partes principais:

La prima e più degna si chiama agibile, la quale tratta non di cose necessarie, e conseguentemente incorrottibili e sempiterne, come fa la Filosofia reale contemplativa, ma tratta di cose contingenti e fatte dagli uomini, e conseguentemente che possono essere e non essere; e questa si ridivide in tre parti: in Etica o vero Morale, la quale considera principalmente i costumi d’un uomo solo; in Economia o vero Familiare, la quale insegna come debba governare la casa sua un padre di famiglia; la terza e ultima si chiama politica, ciò è Civile, la quale dichiara come si debbano reggere e governare gli stati, così le repubbliche come i regni; e questa è più nobile dell’altre due, e si chiama comunemente scienze civile, e, con una parole, prudenza.

A primeira e mais digna chama-se agível, a qual trata não de coisas necessárias e, consequentemente, incorruptíveis e eternas, como faz a Filosofia real contemplativa, mas trata de coisas contingentes e feitas pelos homens, e, consequentemente, podem ser ou não ser. E esta se divide em três partes: em Ética ou Moral, a qual considera principalmente os costumes de um homem sozinho; em Economia ou Familiar, a qual ensina como deve governar a casa um pai de família; e a terceira e última se chama Política, ou seja, Civil, a qual declara como se deve reger e governar os estados, assim como as repúblicas e reinos; e esta é mais nobre do que as outras duas, e se chama comumente de ciência civil e, em uma palavra, prudência.

Então, Varchi descreve a segunda parte da parte prática:

La seconda e ultima parte si chiama fattibile, e sotto questa si comprendono tutte le arti chiamate volgarmente Meccaniche; onde tutta questa parte si chiama Arte, ed è differente dalla prudenza, perchè, oltra che quasi tutte l’arti lasciano, oltra l’operazione, alcuna opera, come si vede nel fabbricare una nave, dove oltra l’operazione, ciò è oltra la fabbricazione, rimane ancora l’opera, ciò è essa nave, il fine delle cose agibili che caggiono sotto la prudenza, sono sempre l’operazioni stesse.

A segunda e última parte se chama factível, e sob esta estão todas as artes chamadas vulgarmente Mecânicas. Toda esta parte se chama Arte, e é diferente da prudência porque, além do fato que quase todas as artes deixam, além da operação, uma obra, como se vê ao fabricar-se um navio, ou seja, além da fabricação permanece uma obra, isto é, o navio, o fim das coisas agíveis que caem sob a prudência são sempre as próprias operações.

As referências a Aristóteles vêm do livro sexto da Ética nicomaqueia. Além disso, Varchi, herdeiro da tradição humanista florentina, segue comentando e comparando a medicina, as armas e as leis; a comparação entre a medicina e as leis remete diretamente a uma obra de Coluccio Salutati, De nobilitate legum et medicine, parte da Disputa delle arti, como se dizia naquele período.

Por fim, Varchi trata da parte racional, “instrumento que serve à Filosofia”, e elenca as disciplinas do Trivium (gramática, retórica e lógica) mais a história e a poesia, estas duas vindas dos estudos dos humanistas.

V. Talvez a principal diferença entre ambos autores esteja no fato que Reisch coloca as disciplinas do Trivium na parte teórica da filosofia, ao passo que para Varchi, junto com a história e a poesia, considera-as como instrumento anterior à Filosofia, seguindo assim não apenas Aristóteles, possivelmente, mas a tradição estoica. O lugar da matemática e da física, não definido claramente em Aristóteles, também aparece diverso em ambos autores. De qualquer modo, o esquema bipartido básico ainda estava presente, seja ele formado de uma parte teórica e uma parte prática, seja ele formado por instrumentos preparatórios e as partes teórica e prática.

Ao longo do Renascimento, humanistas e filósofos escreveram dezenas de classificações de saberes. Por exemplo, Angelo Poliziano escreveu o Panepistemon (O Omnisciente), que de fato é um prólogo ao curso que ele fez no Studium de Florença em 1490-91 a respeito da Ética nicomaqueia, o qual inclui matérias diversas sem colocar em questão a divisão bipartida dos antigos: especulativa (spectativa), ou seja, a parte teórica; ativa (actualis), ou seja, a filosofia prática ou ética; e a filosofia racional (rationalis), ou seja, as disciplinas do Trivium mais a poesia e a história, como também em Varchi. Também, Franciscus Toletus escreveu no início de seus Commentaria una cum quaestionibus in VIII libros De physica auscultatione (Comentários com questões sobre a Física de Aristóteles em oito livros), publicado em 1574, que a filosofia era dividida em três partes: especulativa (speculativa), prática (practica) e produtiva (factiva). Segundo Wallace, esta classificação “has the merit of epitomising the Greek and Latin textual traditions as well as the scholastic revivals in Italy”.

Outros humanistas também propuseram classificações alternativas à tradição aristotélica, como por exemplo Petrus Ramus. Em seu devido tempo, elas estarão aqui. No momento, considerando os fins desta série de posts, basta elaborar a tradição de um modo ou de outra aristotélica.