“Troviamo arti e scienze non udite e mai vedute…”

Desenhista flamengo anônimo. Vista da Domus aurea. Pena e nanquim sobre papel, 22.0 x 33.4 cm, c. 1550. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

Troviamo arti e scienze non udite e mai vedute…”

Eduardo Kickhofel

I. A imagem acima, de um desenhista flamengo anônimo, mostra uma casa em meio às ruinas da Domus Aurea em meados do século XVI. Em Roma, vivia-se em meio a ruínas dos antigos, literalmente, e também usava-se as ruínas para novas construções. Dos tempos medievais, a Casa dei Crescenzi talvez seja o melhor exemplo hoje existente, e centenas de colunas e pavimentos de igrejas romanas daquela época têm origem antiga. No Renascimento, as ruínas antigas foram não apenas utilizadas, mas também estudadas. Giorgio Vasari conta que Filippo Brunelleschi e Donatello foram para Roma no começo do século XV para conhecer obras dos antigos. Entre tantos testemunhos daquela época, o grupo Dioscuri atraiu pintores como Benozzo Gozzoli e, já no início do século seguinte, Rafael Sanzio. Nesse século, Roma foi visitada por dezenas de artífices do norte da Europa. Marteen van Heemskerck talvez seja o artífice mais famoso, e centenas de desenhos e gravuras podem ser vistos no Goldschmidt Scrapbook, álbum de desenhos feitos por artífices franceses, e no Speculum Romanae Magnificentiae, coleção de gravuras editada por Antonio Salamanca e Antonio Lafreri. Era na Itália que podia acontecer a volta da cultura greco-latina. As condições materiais estavam dadas, e foi lá que efetivamente o Renascimento aconteceu.

II. Em 1435, Leon Battista Alberti escreveu o tratado De pictura (Da pintura), e um ano após traduziu-o para o italiano, dedicando-o a Filippo Brunelleschi, inventor da perspectiva e arquiteto da cúpula de Santa Maria del Fiore. No prólogo da edição italiana, Alberti escreve:

Io solea maravigliarmi insieme e dolermi che tante ottime e divine arti e scienze, quali per loro opere e per le istorie veggiamo copiose erano in que’ vertuosissimi passati antiqui, ora così siano mancate e quasi in tutto perdute: pittori, scultori, architetti, musici, ieometri, retorici, auguri e simili nobilissimi e maravigliosi intelletti oggi si truovano rarissimi e poco da lodarli. Onde stimai fusse, quanto da molti questo così essere udiva, che già la natura, maestra delle cose, fatta antica e stracca, più non producea come né giuganti così né ingegni, quali in que’ suoi quasi giovinili e più gloriosi tempi produsse, amplissimi e maravigliosi.

Eu costumava maravilhar-me e, ao mesmo tempo, afligir-me que tantas excelentes e divinas artes e ciências, que sabemos, por obras e histórias, eram abundantes entre os virtuosíssimos antigos, estivessem agora mutiladas ou quase totalmente perdidas. Pintores, escultores, arquitetos, músicos, geômetras, retóricos, áugures e semelhantes nobilíssimos e maravilhosos intelectos são em nossos dias raríssimos e há pouco para louvá-los. Então passei a acreditar, de acordo com o que ouvia de muitas pessoas, que a natureza, mestra das coisas, feita antiga e exaurida, já não produzia nem gigantes nem engenhos extraordinários e admiráveis como nos tempos de sua juventude e esplendor.

Alberti repete o lugar-comum de uma “idade de ouro” dos antigos, que vinha de Francesco Petrarca. Entretanto, naquela geração humanistas e artífices italianos já visavam maior fama do que os antigos:

Ma poi che io dal lungo essilio in quale siamo noi Alberti invecchiati, qui fui in questa nostra sopra l’altre ornatissima patria ridutto, compresi in molti ma prima in te, Filippo, e in quel nostro amicissimo Donato scultore e in quegli altri Nencio e Luca e Masaccio, essere a ogni lodata cosa ingegno da non posporli a qual si sia stato antiquo e famoso in queste arti. Pertanto m’avidi in nostra industria e diligenza non meno che in benificio della natura e de’ tempi stare il potere acquistarsi ogni laude di qual si sia virtù.

Mas depois de um longo exílio em que os Alberti envelheceram, voltei a esta minha pátria, a mais ornada entre as demais, compreendi que em muitos homens, mas principalmente em ti, Filippo, no nosso amicíssimo escultor Donato e em outros como Nencio, Luca e Masaccio, existe engenho louvável capaz de realizar qualquer obra e rivalizar com qualquer artífice antigo e famoso nessas artes. Por isso convenci-me que em nossa dedicação e diligencia, não menos do que dos dons da natureza e dos tempos, está a possibilidade de obter grande fama em qualquer tipo de atividade.

Se Coluccio Salutati na geração anterior ainda se mostrava reticente ao se comparar com os antigos em uma carta escrita a Bartolomeo Oliari, cardeal de Pádua, Alberti sugere não apenas imitar os antigos, mas também superá-los:

Confessoti sì a quegli antiqui, avendo quale aveano copia da chi imparare e imitarli, meno era difficile salire in cognizione di quelle supreme arti quali oggi a noi sono faticosissime; ma quinci tanto più el nostro nome più debba essere maggiore, se noi sanza precettori, senza essemplo alcuno, troviamo arti e scienze non udite e mai vedute. Chi mai sì duro o sì invido non lodasse Pippo architetto vedendo qui struttura sì grande, erta sopra e’ cieli, ampla da coprire con sua ombra tutti e’ popoli toscani, fatta sanza alcuno aiuto di travamenti o di copia di legname, quale artificio certo, se io ben iudico, come a questi tempi era incredibile potersi, così forse appresso gli antichi fu non saputo né conosciuto?

Confesso-te que aos antigos, tendo aqueles de quem aprender e a quem imitar, era menos difícil chegar ao conhecimento daquelas supremas artes que para nós hoje são extremamente penosas. Mas, por isso mesmo, tanto maior será nosso nome se, sem preceptores, sem modelo algum, descobrirmos artes e ciências jamais ouvidas e vistas. Quem haverá tão insensível e invejoso que não louve o arquiteto Pippo, vendo aqui uma construção tão grande, elevada ao céu, ampla a ponto de cobrir com sua sombra todos os povos da Toscana, feita sem o auxílio de travamento ou quantidade grande de madeira? Tal obra, se eu bem julgo, se julgava impossível em nossos tempos, não foi provavelmente nem sabida nem conhecida dos antigos.

Recordando obras existentes, hoje fica evidente o quão os artífices renascentistas superaram os artífices antigos. No caso da arte da pintura, existem poucas pinturas gregas, e a recente descoberta da tumba de Vergina talvez pouco permita saber como foi a arte da pintura entre os gregos. Semelhantemente, existem poucas pinturas romanas preservadas em Roma e em Napoli. Os renascentistas não conheceram pinturas antigas, excetuando poucos fragmentos em Roma, mas elas não sugerem pinturas que pintores da geração de Leonardo da Vinci faziam nas últimas décadas século XV. Desde a época de Alberti, a volta das artes dos antigos implicava sua superação, como ocorreria com as ciências nos dois séculos a seguir.

III. Florença havia sido fundada pelos romanos, possivelmente em 59 a. C, e imagens de satélites mostram o desenho geométrico do núcleo romano original da cidade. Mosaicos de artífices romano-africanos existem nos restos de Santa Reparata, embaixo de Santa Maria del Fiore e, se Florença não tinha a opulência de Roma, ao menos suas ruínas também estavam prontas para serem reutilizadas desde o fim da Idade Média. As colunas do interior do Battistero são romanas, e até hoje vê-se lá dois sarcófagos reutilizados como túmulos medievais, um deles da família Medici. San Miniato al Monte, talvez a mais bela igreja de Florença, também data dessa época, e suas colunas também foram extraídas de edifícios romanos. Aliás, dois imensos sarcófagos romanos estiveram ao lado externo do Battistero até o começo do século passado, hoje no Museo dell’Opera del Duomo, e sugerem o quão era importante para os florentinos identificar-se com Roma, sobretudo a Roma republicana de Marco Tulio Cícero.

Se obras como o Battistero e Santa Maria del Fiore, entre outras, celebravam efetivamente o vigor artístico daquela civiltà que renascia, a celebração simbólica das artes estava nos relevos que Andrea e Nino Pisano (e colaboradores) fizeram para o Campanile do Duomo por volta de 1340. Os relevos mostram as artes e ciências que faziam a Florença daquela época, em um programa cívico-religioso que começa com a criação de Adão e Eva, que segue com seus trabalhos após o pecado original. A falta de um relevo que represente o pecado sugere que naquela época o trabalho não era visto como punição divina, mas sim como parte das virtudes dos homens que faziam seu próprio mundo. Os relevos seguintes mostram artes mencionadas no Gênesis, ou seja, ofícios ou profissões que implicavam conhecimentos mais ou menos sistematizados. Jabal representa a invenção do pastoreio e Jubal, a invenção da música. Tubalcain mostra a metalurgia, e Noé embriagado mostra não apenas a invenção do vinho, mas alude ao pecado. Seguem-se diversas artes e ciências, como a geometria e a arquitetura, a medicina e outras mais. Artes e ciências estão colocadas lado a lado, em obras que sugerem novos valores dados à vita activa e o status social crescente de certos artífices, inclusive escultores e pintores. Essa celebração das artes e ciências ocorria em um local público importante, possivelmente um dos dois locais públicos mais importantes na Florença daquela época, e recorda Coluccio Salutati, que pouco após escreveria a respeito das artes dos florentinos do século XIV, “por causa das quais somos aquilo que somos”. Talvez aqui esteja o marco mais importante do lento processo de valorização das artes e da vita activa, ao menos em solo toscano.

Vale dizer que, quando foram feitos, os relevos não eram obras de arte, no sentido de obras apreciadas sobretudo por suas características estético-formais. No Renascimento, pinturas, esculturas e objetos semelhantes tinham sobretudo funções religiosas e políticas, por exemplo, mas não eram apreciadas por suas qualidades estético-formais. No caso de funções religiosas, elas eram “devotional images”, citando uma expressão do historiador da arte Hans Belting, e isso fica claro nas palavras de Giovanni da Genova em um livro escrito no século XIII:

Item scire te volo quod triplex fuit ratio institutionis imaginum in ecclesia. Prima ad instructionem rudium, qui eis quasi quibusdam libris e doceri videntur. Secunda ut incarnationis mysterium et sanctorum exempla magis in memoria nostra essent dum quotidie oculis nostris representantur. Tertia ad excitandum devotiones affectum, que ex visis efficacius excitatur quam ex auditis.

Sabeis que três razões têm presidido a instituição das imagens nas igrejas. Em primeiro lugar, para a instrução das pessoas simples, pois são instruídas por elas como pelos livros. Em segundo lugar, para que o mistério da encarnação e os exemplos dos santos pudessem agir melhor em nossa memória, estando expostos diariamente aos nossos olhos. Em terceiro lugar, para suscitar sentimentos de devoção, que são mais eficazmente despertados por meio de coisas vistas que de coisas ouvidas.

Essas palavras seguem quase literalmente Tomás de Aquino no Scriptum super Sententiis (Comentário sobre as Sentenças). Com o devido cuidado, pode-se ler obras seculares tendo essas noções como base, e pensar os relevos do Campanile como “civic images” que celebram a vida cívica intimamente relacionada à vida religiosa da cidade.

IV. Em um contexto social que valorizava as artes de modo novo, Giotto di Bondone foi celebrado por Dante Alighieri na Divina commedia (Divina comédia) e o cronista Giovanni Villani chama Giotto de “o mais soberano mestre de pintura que existia em seu tempo” (“il più sovrano maestro stato in dipintura chessi trovasse al suo tempo”), que “foi sepultado pela prefeitura [de Florença] em Santa Reparata com grande honra” (“fu seppellito per lo Comune a Santa Reparata con grande onore”). No Decameron, Giovanni Boccaccio faz um longo elogio ao primeiro pintor renascentista:

E l’altro, il cui nome fu Giotto, ebbe uno ingegno di tanta eccellenzia, che niuna cosa dà la natura, madre di tutte le cose e operatrice col continuo girar de’ cieli, che egli con lo stile e con la penna o col pennello non dipignesse sì simile a quella, che non simile, anzi più tosto dessa paresse, in tanto che molte volte nelle cose da lui fatte si truova che il visivo senso degli uomini vi prese errore, quello credendo esser vero che era dipinto. E per ciò, avendo egli quell’arte ritornata in luce, che molti secoli sotto gli error d’alcuni, che più a dilettar gli occhi degl’ignoranti che a compiacere allo ’ntelletto de’ savi dipignendo, era stata sepulta, meritamente una delle luci della fiorentina gloria dir si puote; e tanto più, quanto con maggiore umiltà maestro degli altri in ciò vivendo, quella acquistò, sempre rifiutando d’esser chiamato maestro.

E o outro, cujo nome foi Giotto, teve um engenho de tanta excelência que nenhuma coisa da natureza, mãe de todas as coisas e operadora do contínuo girar dos céus, [existia] que ele com o estilo, com a pena ou com o pincel não pintasse semelhante àquela, se não semelhante, mas ao contrário, mais prontamente parecia com ela, tanto que muitas vezes as coisas feitas por ele enganam o sentido da visão dos homens, acreditando eles ser verdade aquilo que é pintado. E por isso, tendo trazido de volta aquela arte, que por muitos séculos os erros de alguns, mais para deleitar os olhos dos ignorantes do que comprazer o intelecto dos sábios, fora sepultada, ele pode ser considerado uma das luzes da glória florentina; e mais ainda porque adquiriu humildade mesmo sendo mestre dos outros, recusando ser chamado com tal.

Na virada do século XIV ao XV, o pintor Cennini Cennini talvez resuma a questão em uma feliz frase logo no início do Il libro dell’arte: “Giotto mudou a arte da pintura do grego para o latim, e fazendo-a moderna.” (“Il quale Giotto rimutò l’arte del dipignere di greco in latino, e ridusse al moderno.”) Poggio Bracciolini descobriu o De architectura (Da arquitetura) de Vitrúvio na biblioteca do monastério de Saint Gall em 1416, fazendo objetos das letras certas artes até então consideradas pouco próprias à dignidade humana. Os três tratados de arte escritos por Leon Battista Alberti, quais sejam, o já mencionado De pictura, o De re aedificatoria (Da edificação, 1452) e o De statua (Da estátua, circa 1460), podem ser vistos nesse contexto. Em meados do século XV, Lorenzo Ghiberti podia assinar e colocar autorretratos nas duas portas de bronze que fez para o Battistero de Florença, e também redigiu um importante tratado de arte, chamado Commentarii (Comentários) desde a edição de Julius von Schlosser, no qual ele repete o lugar-comum petrarquiano e, sobretudo, escreve sua autobiografia, a primeira conhecida de um artífice. Como Alberti, Ghiberti buscava os princípios de sua arte para operar seguramente e também para saber dizer quanta ciência havia em sua arte.

Ao longo do Renascimento, humanistas e poetas escreveram poemas laudatórios para os artífices, e o primeiro monumento erguido para um artífice foi o monumento a Michelangelo que está em Santa Croce, e que para ele foi escrita e publicada a primeira oração fúnebre de um artífice. Em 1550, Giorgio Vasari publicou Le vite de’ più eccellenti architetti, pittori, et scultori italiani (As vidas dos mais excelentes arquitetos, pintores e escultores italianos), em 1568 ampliada como Le vite dei più eccellenti pittori, scultori e architetti (As vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos), livros que consolidariam o novo valor das três artes tratadas por Alberti no século anterior. Entretanto, não apenas essas artes eram valorizadas. Em um contexto de progressivo valor da vita activa, os matemáticos teriam interesse em conceber artes como a balística e as mecânicas em termos matemático-dedutivos, como Niccolò Tartaglia e Guidobaldo del Monte em seus livros La nova scientia de Nicolo Tartaglia (A nova ciência de Niccolò Tartaglia) e Mechanicorum liber (Livro dos mecânicos), publicados respectivamente em 1550 e 1577, entre outros. Falaremos dessas artes mecânicas em seu devido tempo.

Resta dizer que no século XVI Florença perdeu parcialmente sua primazia cultural para cidades italianas como Roma e também cidades europeias, mas ainda teve fôlego para criar a ópera no fim do século e fomentar a criação da ciência moderna no início do século seguinte. Não recordo outra cidade que sequer se aproxime de Florença.

Referências bibliográficas

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Vincenzo Catena. São Jerônimo em seu estúdio. Óleo sobre tela, 75.9 x 98.4 cm, circa 1510. The National Gallery, Londres.

Referências bibliográficas

Eduardo Kickhöfel

I. Os dois posts anteriores apontam para minha porta de entrada ao Renascimento, por assim dizer. De certa forma, sigo Benedetto Varchi ao falar da importância de definir os “termos principais” antes de qualquer disputa e de pensar “sob que parte da filosofia se coloca o assunto de que se escreve”.

Resta dizer que no Renascimento a palavra “arte” também era usada no sentido de ofício ou profissão, como sugere o pintor Cennino Cennini em seu tratado Libro dell’arte (Livro da arte), por ele escrito por volta de 1400. No primeiro parágrafo, ele escreve que Giotto “teve a arte mais completa que nenhum outro tivera”, ou seja, tivera conhecimentos práticos inéditos para pintar “conforme a natureza”, como se dizia na época. Citando outra vez Benedetto Varchi, arte era “um hábito de fazer com verdadeira razão”. Cennino também escreve que era um “pequeno membro exercitante na arte da pintura”, ou seja, membro do ofício ou da profissão da pintura. Esses dois sentidos vinham dos antigos, conforme mostram dicionários gregos. O Greek–English Lexicon de Liddell e Scott define “technê” como “art, skill, craft in workmanship, cunning of hand”, “an art, craft, trade” e “an art or craft, a set of rules or regular method of making or doing”. O Dictionnaire Étymologique de Chantraine define “technê” semelhantemente, isto é, “savoir-faire dans un métier” e “métier, technique, art”. No começo da Metafísica, Aristóteles remete às “discussões éticas”, ou seja, aos livros que hoje compõem a Ética nicomaqueia, mas em certas passagens pode-se pensar “technê” como ofício ou profissão.

Resta também dizer que, no contexto acadêmico contemporâneo, a palavra “arte” significa sobretudo obra de arte. Quando se usa essa palavra hoje, pensa-se a respeito de obras de arte, ou seja, certos objetos considerados e apreciados sobretudo por suas qualidades estético-formais, independentemente de terem sido concebidos como tais, como no caso de obras anteriores ao Romantismo e também de objetos feitos em culturas não ocidentais. Basta recordar museus como o Museu de Arte de São Paulo e o Metropolitan Museum of Art, por exemplo, ou então o título de um livro como História da arte do Renascimento, que significa história das obras de arte do Renascimento.

Em suma, pintores como Giotto e Cennini tinham artes e, assim, podiam exercer a profissão de artífice seguindo encomendas e contratos. Hoje, pintores como Gerhard Richter fazem arte, isto é, fazem obras de arte, e ao expressarem suas respectivas subjetividades são reconhecidos como artistas.

II. Isto posto, alguns parágrafos dos dois posts prévios vêm de um artigo chamado “A Philosophiae partitio de Gregor Reisch”, recentemente publicado. Lá, inclusive, mostro e analiso outras gravuras do livro de Gregor Reisch. Aliás, aproveito este post para anotar um erro. Na página 125, está escrito: “Como entender um período em que um escritor, ao introduzir ‘um soneto de M. Michelangelo Buonarroti’ em meados do século XVI, deixa clara a respeito da inferioridade das artes em relação às ciências?” A passagem correta seria: “Como entender um período em que um escritor, ao introduzir uma disputa a respeito das artes em meados do século XVI, deixa claro a inferioridade das artes em relação às ciências?” Quem escreve artigos sabe que, não obstante dezenas de revisões, erros são criaturas que insistem em permanecer.

Não sou estudioso do estagirita, e estudo seus textos em função das questões renascentistas que me interessam. As passagens de Aristóteles que cito vêm da tradução de Lucas Angioni, e uso também as edições de W. David Ross e Jonathan Barnes. Também uso o Cambridge Companion editado por Jonathan Barnes e verbetes da Stanford Encyclopedia of Philosophy, entre outros textos. As outras fontes que cito nos dois posts também estão mencionadas abaixo. Reisch está disponível em diversas edições em diversas páginas, como no Internet Archive, Munich Digitization Center e e-rara. Varchi está disponível no Internet Archive. Cennini, citado acima, também está disponível na internet em uma edição antiga na página Liber Liber, ainda apropriada para um primeiro contato. Após, anoto as referências dos textos de Bianchi, Kuhn e Wallace, e também os textos que uso a respeito de classificações das ciências até o Renascimento.

Fontes

ARISTÓTELES. Metafísica. Livros I, II e III. Tradução, introdução e notas [de] Lucas Angioni. Campinas: IFCH Unicamp, 2008.

ARISTOTLE. Metaphysics. A revised text with introduction and commentary by W. David Ross. Oxford: Oxford University Press, 1975.

______. The Complete Works of Aristotle. Edited by Jonathan Barnes. Princeton: Princeton University Press, 1984.

CENNINI, C. Il libro dell’arte. Ed. a cura di Fabio Frezzato. Vicenza: Neri Pozza Editore, 2003.

REISCH, G. Margarita philosophica. Freiburg im Breisgau: Johannen Schottum, 1503.

VARCHI, B. “Sopra la pittura e scultura: lezione due.” In: RACHELI, A. (Ed.), Opere di Benedetto Varchi. Trieste: Sezione Letterario-Artistica del Lloyd Austriaco, 1859, v. 2, p. 611-647.

______. “Divisione della filosofia.” In: RACHELI, A. (Ed.), Opere di Benedetto Varchi. Trieste: Sezione Letterario-Artistica del Lloyd Austriaco, 1859, v. 2, p. 794-796.

Estudos

BLAIR, A. M. “Organizations of knowledge.” In: HANKINS, J. (Ed.), The Cambridge Companion to Renaissance Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 287-303.

BIANCHI, L. “Continuity and change in the Aristotelian tradition.” In: Hankins, J. (Ed.), The Cambridge Companion to Renaissance Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 2007, p. 49-71.

KRISTELLER, P. O. “The modern system of the arts: a study in the history of aesthetics Part I.” Journal of the History of Ideas, vol. 12 (1951), no. 4, p. 496-527.

______. “The modern system of the arts: a study in the history of aesthetics Part II.” Journal of the History of Ideas, vol. 13 (1952), no. 1, p. 17-46.

KUHN, H. “Aristotelianism in the Renaissance.” In: Zalta, E. N. (Ed.), The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2016 Edition).

MANDOSIO, J.-M. “Filosofia, arti e scienze: l’enciclopedismo di Angelo Poliziano.” In: SECCHI TARUGI, L. (Ed.), Poliziano nel suo tempo. Firenze: Franco Cesati Editore, 1996, p. 135-164.

______. “Les sources artistiques antiques de la classificacion des sciences et des arts à la Renaissance.” In: JACQUART, D. (Ed.), Les voies de la science grecque: études sur la trasmission des textes de l’antiquité ai XIXe siècle. Genève: Droz, 1997, p. 331-390.

______. “Méthodes et fonctions de la classification des sciences et des arts (XVe-XVIIe siècles).” In: Nouvelle Revue du XVIe siècle, no. 20/1 (2002), p. 19-30.

MEIRINHOS, J. “O sistema das ciências num esquema do século XII no Manuscrito 17 de Santa Cruz de Coimbra (Porto, BPM, Geral 21).” In: Medievalista, a. 5, n. 7 (2009), p. 1-27.

NANNI, R. “La tecnica nel Panepistemon di Angelo Poliziano: mechanica e artes sellulariae.” In: Physis, v. 44, f. 2 (2007), p. 349-376.

PARRY, R. “Episteme and Techne.” In: ZALTA, E. N. (Ed.), The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2016 Edition).

STENECK, N. H. “A late medieval Arbor Scientiarum.” In: Speculum, v. 50, n. 2 (1975), p. 245-269.

WALLACE, W. A. “Traditional natural philosophy.” In: SCHMITT, C. B., SKINNER, Q. (Eds.), The Cambridge History of Renaissance Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1988, p. 201-235.

WEISHEIPL, J. A. “Classification of the sciences in Medieval thought.” In: Medieval Studies, v. 27 (1965), p. 54-90.

______. “The nature, scope and classification of the sciences.” In: LINDBERG, D. C. (Ed.), Science in the Middle Ages. Chicago: Chicago University Press, 1977, p. 461-82.

“Favellando aristotelicamente”

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Gregor Reisch. Philosophiae partitio. Friburgi, 1503. Universitätsbibliothek Freiburg.

Favellando aristotelicamente

Eduardo Kickhöfel

I. Aristóteles foi o filósofo mais lido e comentado no Renascimento. Segundo Heinrich Kuhn, Richard Blum contou 6635 comentários escritos entre os anos 1500 e 1650, que por sua vez escreve: “It is an astonishing fact that the number of Latin Aristotle commentaries composed in this brief span exceeds that of the entire millennium from Boethius to Pomponazzi.” Nesse sentido, Luca Bianchi comenta: “If the greatest intellectual novelty of the Renaissance was the rediscovery of little-known and forgotten philosophical traditions, Aristotelianism nevertheless remained the predominant one through the end of the sixteenth and into the seventeenth century. More than three thousand editions of his works were published between the invention of printing and 1600, of which hundreds date from the fifteenth century; by way of comparison, there were only fourteen incunables containing works of Plato. As for commentaries, there are at least twenty times more on Aristotle than on the dialogues of Plato.” Não obstante uma importante tradição de estudos que durante décadas tratou o Renascimento como um período sobretudo neoplatônico, as fontes mostram a influência do filósofo de Estagira nos conceitos e nas classificações de saberes. As condenações do livro de Nicolau Copérnico em 1616 e de Galileu Galilei em 1633 apontam diretamente para essa ideia. Então, continuemos nossas matérias, como escreveu Benedetto Varchi, “conversando aristotelicamente”.

II. Aristóteles discutiu meticulosamente conceitos, sendo inclusive o quinto livro da Metafísica uma espécie de léxico filosófico aristotélico. Entretanto, poucas são as menções a classificações das ciências no corpus de textos existente. Coube aos medievais dedicarem-se a elas. Para eles, era importante não apenas esclarecer conceitos básicos, mas sim as relações entre eles e também entre eles e conceitos subordinados. Entre os medievais, talvez a classificação mais conhecida esteja no Didascalicon de Hugo de São Vitor: “A filosofia (philosophia) é dividida em teórica, prática, mecânica e lógica; estas quatro partes contêm toda a ciência (scientiam).” A parte teórica estava subdividida em metafísica, matemática e física; a parte prática, em ética, economia e política; e a parte mecânica, nas diversas artes para as utilidades e para os divertimentos. Isso corresponde à divisão tripartida de Aristóteles, que também pode ser pensada como bipartida, como está escrito no post anterior. Seguindo autores que o precediam, Hugo coloca as disciplinas do Quadrivium sob a matemática, em uma tentativa de conciliar os currículos romanos com classificações de saberes vindas dos gregos. A novidade está no tratamento dado às artes mecânicas, talvez um prenúncio ao novo valor dado à vita activa e às artes no Renascimento. Hugo também elenca a lógica como parte da filosofia, ou seja, as disciplinas do Trivium. Vale dizer que Aristóteles não menciona o lugar da lógica em seus textos, mas em geral ela foi compreendida como um instrumento para a filosofia, não obstante diversas variações. De qualquer modo, por volta de 1255 Vicente de Beauvais listou oito classificações de saberes em seu Speculum doctrinale (Espelho doutrinal) sem decidir qual a mais apropriada: Aristóteles, Agostinho, Isidoro de Sevilha, Al-Farabi, Avicebron, Hugo de São Vítor, Ricardo de São Vítor e Miguel Scotus.

III. No Renascimento, dezenas de filósofos e humanistas também se dedicaram às classificações de saberes. Publicado pela primeira vez em Freiburg em 1503, o livro de Gregor Reisch Margarita philosophica (Margarida filosófica) teve inúmeras reedições em diversas cidades europeias (1504, 1508, 1512, 1515, 1517, 1535, 1583 e 1599, entre outras), sugerindo sua importância na cultura letrada renascentista. Não é um livro que contém ideias originais, mas sim uma enciclopédia que resume as matérias que jovens estudantes tinham de saber para iniciar seus estudos universitários. Logo no início desse livro, Reisch mostra a Philosophia partitio, ou seja, a partição da filosofia, ilustrada acima.

A filosofia é a forma de conhecimento mais ampla que visa as coisas divinas e humanas conjuntamente com o estudo do viver bem: “Philosophia est divinarum humanarumque rerum cognitio cum studio bene vivendi coniuncta.” Reisch divide a filosofia (Philosophia) em teórica (Theorica[m] sive speculativam) e prática (Practicam). Eis a divisão bipartida básica dos antigos, já comentada. A parte teórica está dividida em real (Realis) e racional (R[ati]ona[lis]). A parte real contém as ciências teóricas da tradição aristotélica, ou seja, metafísica (Metaphisicam), centrada sobre o ser em geral abstraído de sua materialidade; matemática (Mathem[at]icam), que trata das abstrações quantitativas e aqui na forma das disciplinas do Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música); e física (Phisicam sive [philosophiam] naturalem), que tinha a matéria sensível como objeto de consideração e cujos ensinamentos eram dados principalmente pelos livros naturais de Aristóteles (Física, Do céu, Da geração e corrupção e outros). A parte racional, por sua vez, contém as disciplinas do Trivium (gramática, retórica e lógica). A parte prática, por sua vez, está dividida em ativa (Activa) e produtiva, cujas partes são as artes mecânicas (Facti[v]a, cuius p[arte]s sunt artes Mecha[n]ices). Por fim, a parte ativa está subdividida em ética (Aethica), política (Politica), econômica (Iconomica) e monástica (Monastica). A parte produtiva está dividida em lanifício (Lanificium), arsenal (Armatura), navegação (Navigatio), artes militares (Venatio), medicina (Medicina) e teatro (Theatrica), seguindo diretamente as artes listadas por Hugo de São Vitor.

A Philosophiae partitio expressa uma espécie de koiné aristotélica, uma síntese que mostra como os modelos antigos operavam no Renascimento. Aliás, basta ver a imagem para saber quais disciplinas eram mais valorizadas no âmbito de Gregor Reisch.

IV. Escrito em meados do século XVI, o pequeno texto Divisione della filosofia, do humanista e historiador florentino Benedetto Varchi, também sintetiza questões amplas do Renascimento. Logo no primeiro parágrafo, Varchi escreve:

La Filosofia, la quale è la cognizione di tutte le cose che sono, così umane come divine, ha per soggetto e materia sua l’ente, cio è tutto quello che è; ed in somma tutte le cose così terrene e mortali, come celesti e sempiterne; e perchè l’ente si divide primieramente in due parti, in reale ed in razionale, quinci è che la Filosofia ha due parti: la prima e più nobile, perchè tratta delle cose, si chiama reale; la seconda e manco perfetta, perchè tratta delle parole, si chiama razionale, ciò è verbale, per così dire, o vero sermocinale, ed in somma intenzionale; onde vogliono molti che questa non sia veramente parte di Filosofia, mas organo, ciò è strumento che serva alla Filosofia.

A Filosofia, a qual é a cognição de todas as coisas que existem, humanas ou divinas, tem por objeto e matéria o ente, ou seja, tudo aquilo que existe; e em suma [conhece] tanto todas as coisas terrenas e mortais como [as coisas] celestes e eternas. E porque o ente se divide primeiramente em duas partes, em real e racional, assim a Filosofia tem duas partes: a primeira e mais nobre, porque trata das coisas, se chama real; a segunda e imperfeita, porque trata das palavras, se chama racional, isto é, verbal, por assim dizer, ou ainda artes da palavra, e em suma intencional. Alguns querem que esta não seja verdadeiramente parte da Filosofia, mas órgão, isto é, instrumento que serve à Filosofia.

Varchi, então, elabora sua divisão da filosofia. Na parte real, ele segue a divisão bipartida básica:

La filosofia reale si divide principalmente in due parti: la prima e più nobile si chiama specolativa o vero contemplativa; perchè il suo fine non è altro che specolare e contemplare, ciò è conoscere e sapere la verità delle cose; la seconda parte e meno perfetta si chiama pratica, perchè il fine suo ultimo non è intendere e sapere, ma operare.

A Filosofia real se divide principalmente em duas partes: a primeira e mais nobre se chama especulativa ou contemplativa, porque seu fim não é outro que especular ou contemplar, isto é, conhecer e saber a verdade das coisas. A segunda e menos perfeita parte se chama prática, porque o seu fim último não é entender e saber, mas operar.

Varchi também segue a tradição ao subdividir a parte especulativa ou contemplativa da filosofia:

La Filosofia reale specolativa si divide in tre parti: nella Metafisica, ciò è scienza sopranaturale o vero divina; e questa, perchè tratta di tutte quelle cose le quali sono astratte o vero separate da ogni materia, ciò è di Dio e dell’altre Intelligenze, è nobilissima di tutte l’altre scienze. La seconda si chiama Fisica, ciò è scienza naturale, la quale tratta di tutte quelle cose le quali sono in tutto e per tutto sommerse nella materia, ed in somma di tutte le cose naturali, ciò è fatte dalla natura. La terza ed ultima parte si chiama da un verbo greco, che vuol dire imparare, Matematica; e questa tratta di tutte quelle cose le quali sono parte astratte e libere da ogni materia, e parte sommerse e tuffate nella materia, ciò è che in verità non si truovano se non in cose materiali, e così in quanto all’essenza e natura loro sono materiali, ma si considerano e diffiniscono come se non fussero in materia nessuna; e però quanto alla diffinizione si chiamano immateriali. E queste, ciò è le Matematiche, sono principalmente quattro: Aritmetica, Musica, Geometria, Astrologia o più veramente Astronomia; sotto la quale si contengono molte altre, come Cosmografia, Prospettiva ed altre cotali.

A filosofia real especulativa se divide em três partes: em Metafísica, isto é, ciência sobrenatural ou divina; e esta, porque trata de todas aquelas coisas que são abstratas ou separadas de qualquer matéria, isto é, Deus e as outras inteligências, é a mais nobre de todas as ciências. A segunda se chama Física, isto é, ciência natural, a qual trata de todas aquelas coisas em tudo e por tudo submersas na matéria, e em suma de todas as coisas naturais, isto é, feitas pela natureza. A terceira e última parte se chama por um verbo grego que quer dizer aprender, matemática; e esta trata de todas aquelas coisas que são em parte abstratas e livres de qualquer matéria, e em parte submersas e mergulhadas na matéria, isto é, que em verdade não se encontram se não nas coisas naturais, e assim quanto à essência e natureza são materiais, mas que se consideram e definem como se não fossem em nenhuma matéria; e pela definição se chamam imateriais. E estas, isto é, as Matemáticas, são principalmente quatro: Aritmética, Música, Geometria e Astrologia, ou mais verdadeiramente Astronomia, sob as quais estão muitas outras, como a Cosmografia, a Perspectiva e outras como tais.

As distinções entre as partes da filosofia nesses termos vêm das questões 5 e 6 do comentário de Tomás de Aquino ao De trinitate (Da trindade) de Boécio, no qual Tomás elabora a ideia de scientiae mediae ou seja, as ciências intermediárias entre a física e a matemática. Nesse sentido, na parte matemática Varchi insere as disciplinas do Quadrivium como Reisch fizera, mas adiciona outras disciplinas que na época se utilizavam das matemáticas; em Florença, citar a perspectiva – inclusive a perspectiva para uso dos artífices – como parte da matemática era inevitável devido à tradição que começara com Filippo Brunelleschi e Leon Battista Alberti.

Semelhantemente, Varchi repete a tradição aristotélica ao descrever a parte prática da filosofia, que se divide em duas partes principais:

La prima e più degna si chiama agibile, la quale tratta non di cose necessarie, e conseguentemente incorrottibili e sempiterne, come fa la Filosofia reale contemplativa, ma tratta di cose contingenti e fatte dagli uomini, e conseguentemente che possono essere e non essere; e questa si ridivide in tre parti: in Etica o vero Morale, la quale considera principalmente i costumi d’un uomo solo; in Economia o vero Familiare, la quale insegna come debba governare la casa sua un padre di famiglia; la terza e ultima si chiama politica, ciò è Civile, la quale dichiara come si debbano reggere e governare gli stati, così le repubbliche come i regni; e questa è più nobile dell’altre due, e si chiama comunemente scienze civile, e, con una parole, prudenza.

A primeira e mais digna chama-se agível, a qual trata não de coisas necessárias e, consequentemente, incorruptíveis e eternas, como faz a Filosofia real contemplativa, mas trata de coisas contingentes e feitas pelos homens, e, consequentemente, podem ser ou não ser. E esta se divide em três partes: em Ética ou Moral, a qual considera principalmente os costumes de um homem sozinho; em Economia ou Familiar, a qual ensina como deve governar a casa um pai de família; e a terceira e última se chama Política, ou seja, Civil, a qual declara como se deve reger e governar os estados, assim como as repúblicas e reinos; e esta é mais nobre do que as outras duas, e se chama comumente de ciência civil e, em uma palavra, prudência.

Então, Varchi descreve a segunda parte da parte prática:

La seconda e ultima parte si chiama fattibile, e sotto questa si comprendono tutte le arti chiamate volgarmente Meccaniche; onde tutta questa parte si chiama Arte, ed è differente dalla prudenza, perchè, oltra che quasi tutte l’arti lasciano, oltra l’operazione, alcuna opera, come si vede nel fabbricare una nave, dove oltra l’operazione, ciò è oltra la fabbricazione, rimane ancora l’opera, ciò è essa nave, il fine delle cose agibili che caggiono sotto la prudenza, sono sempre l’operazioni stesse.

A segunda e última parte se chama factível, e sob esta estão todas as artes chamadas vulgarmente Mecânicas. Toda esta parte se chama Arte, e é diferente da prudência porque, além do fato que quase todas as artes deixam, além da operação, uma obra, como se vê ao fabricar-se um navio, ou seja, além da fabricação permanece uma obra, isto é, o navio, o fim das coisas agíveis que caem sob a prudência são sempre as próprias operações.

As referências a Aristóteles vêm do livro sexto da Ética nicomaqueia. Além disso, Varchi, herdeiro da tradição humanista florentina, segue comentando e comparando a medicina, as armas e as leis; a comparação entre a medicina e as leis remete diretamente a uma obra de Coluccio Salutati, De nobilitate legum et medicine, parte da Disputa delle arti, como se dizia naquele período.

Por fim, Varchi trata da parte racional, “instrumento que serve à Filosofia”, e elenca as disciplinas do Trivium (gramática, retórica e lógica) mais a história e a poesia, estas duas vindas dos estudos dos humanistas.

V. Talvez a principal diferença entre ambos autores esteja no fato que Reisch coloca as disciplinas do Trivium na parte teórica da filosofia, ao passo que para Varchi, junto com a história e a poesia, considera-as como instrumento anterior à Filosofia, seguindo assim não apenas Aristóteles, possivelmente, mas a tradição estoica. O lugar da matemática e da física, não definido claramente em Aristóteles, também aparece diverso em ambos autores. De qualquer modo, o esquema bipartido básico ainda estava presente, seja ele formado de uma parte teórica e uma parte prática, seja ele formado por instrumentos preparatórios e as partes teórica e prática.

Ao longo do Renascimento, humanistas e filósofos escreveram dezenas de classificações de saberes. Por exemplo, Angelo Poliziano escreveu o Panepistemon (O Omnisciente), que de fato é um prólogo ao curso que ele fez no Studium de Florença em 1490-91 a respeito da Ética nicomaqueia, o qual inclui matérias diversas sem colocar em questão a divisão bipartida dos antigos: especulativa (spectativa), ou seja, a parte teórica; ativa (actualis), ou seja, a filosofia prática ou ética; e a filosofia racional (rationalis), ou seja, as disciplinas do Trivium mais a poesia e a história, como também em Varchi. Também, Franciscus Toletus escreveu no início de seus Commentaria una cum quaestionibus in VIII libros De physica auscultatione (Comentários com questões sobre a Física de Aristóteles em oito livros), publicado em 1574, que a filosofia era dividida em três partes: especulativa (speculativa), prática (practica) e produtiva (factiva). Segundo Wallace, esta classificação “has the merit of epitomising the Greek and Latin textual traditions as well as the scholastic revivals in Italy”.

Outros humanistas também propuseram classificações alternativas à tradição aristotélica, como por exemplo Petrus Ramus. Em seu devido tempo, elas estarão aqui. No momento, considerando os fins desta série de posts, basta elaborar a tradição de um modo ou de outra aristotélica.

“Quod igitur sapientia circa aliquas causas & principia scientia sit patet.”

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Andrea Pisano. Arquitetura. Mármore, 80 x 70 cm, circa 1340. Museo dell’Opera del Duomo, Florença.

Quod igitur sapientia circa aliquas causas & principia scientia sit patet.”

Eduardo Kickhöfel

I. No ano de 1549, o humanista e historiador Benedetto Varchi publicou o livro Due Lezzioni (Duas lições), a primeira a respeito de um soneto de Michelangelo, e a segunda a respeito de qual arte seria mais nobre, a pintura ou a escultura, ambas proferidas em 1546 na Accademia Fiorentina. No prefácio da segunda lição, Varchi nos dá uma lição de método: “Em qualquer disputa, em primeiro lugar deve-se declarar os termos principais para evitar o equívoco e a troca de nomes.” (“In ciascuna disputa si debbe la prima cosa, per fuggire l’equivocazione e scambiamento dei nomi, dichiarare i termini principali.”) Então, Varchi declara os sentidos de “arte” e “scienza” utilizando a Ética a Nicômaco. Seguindo a tradição florentina de que Varchi fazia parte, vejamos brevemente os “termini principali” dos filósofos antigos para os fins de um curso renascentista.

II. A origem dos conceitos em questão está nos textos de Platão. Por exemplo, no Político Platão escreve a respeito de “classificar todas as ciências (epistêmas) em dois aspectos”. Então, ele fala da aritmética (arithmetikê) e de outras artes (têchnai) “separadas da ação e dirigidas apenas para o conhecimento”, e também de artes como a “arquitetura ou com qualquer outra forma de construção manual”, que são “ligadas originalmente à ação” para que “sejam produzidos corpos que antes não existiam”. Logo a seguir, Platão divide as ciências em prática e puramente intelectual: “Classifiquemos todas as ciências atendendo a este princípio. Demos a uma parte o nome de ciência prática (praktikên) e, à outra, de ciência puramente intelectual (mónon gnostikên).” Vale aqui recordar outra vez a famosa bravata de Alfred N. Whitehead: “The safest general characterization of the European philosophical tradition is that it consists of a series of footnotes to Plato.” Então, here we go again

III. No início da Metafísica, Aristóteles estabelece uma hierarquia entre arte (têchne) e ciência (epistême). Uma arte “nasce quando, de diversas considerações de experiência (empiria), surge uma única noção universal a respeito de semelhantes”. O exemplo vem da medicina: “De fato, ter a noção de que tal e tal coisa foi conveniente a Cálias, que padecia de tal doença, e a Sócrates, e a muitos outros, caso a caso, é próprio da experiência.” Entretanto, é próprio da arte “ter noção de que tal e tal coisa foi conveniente a todos os de tal e tal qualidade, delimitados por um tipo único, isto é, que padeciam de tal e tal doença (por exemplo, aos fleumáticos, ou biliosos, ou febris)”. Conhecer pertence mais à arte do que à experiência, pois os experientes (empeirôn) “conhecem o ‘que’, mas não o ‘por que’”, mas os artífices (technitâs) “conhecem o ‘por que’ e a causa”:

Por isso, em cada domínio, também consideramos que os mestres-de-obra sabem mais e são mais valiosos e sábios que os trabalhadores braçais, porque sabem as causas daquilo que está sendo produzido (ao passo que estes últimos, como certas coisas inanimadas, fazem algo, mas fazem sem saber aquilo que fazem – como, por exemplo, o fogo queima –, mas os inanimados fazem cada coisa devido a certa natureza, ao passo que os trabalhadores braçais fazem por hábito), como se os considerássemos mais sábios não por serem capazes de agir, mas porque dominam a explicação e conhecem as causas.

Segundo Aristóteles, aquele que inventou artes que saíam “das percepções comuns provavelmente deve ter sido admirado pelos homens não apenas porque algum dos achados era útil, mas por ser alguém sábio e diferente dos outros”, e quando outros ainda inventaram outras artes, “umas para as necessidades, outras para o divertimento, estes, provavelmente, foram considerados mais sábios que aqueles, porque seus conhecimentos não eram voltados à utilidade”. Então, quando as artes desses tipos “estavam já constituídas, foram inventadas as ciências que não são voltadas nem ao prazer, nem às necessidades, e primeiramente nas regiões em que primeiramente se teve lazer”. Segundo Aristóteles, as artes matemáticas (technai mathematikai) foram constituídas “se primeiramente no Egito, pois lá o grupo dos sacerdotes teve lazer.” Aristóteles escreve “artes matemáticas”, pois possivelmente o conhecimento das causas em questão ainda estava relacionado às medições de terra após as inundações do Rio Nilo. O passo seguinte foi constituir as ciências “a respeito de certos princípios e causas”, “ciências teóricas (theoretikai)” que “são mais ciência que as ciências produtivas (poietikôn)”. Nota-se que a palavra “ciência” (“epistême”) não está no original grego, mas pode-se inferi-la corretamente (embora possa-se optar por “conhecimento”). Isso implica pensar que a expressão “ciência produtiva” e a palavra “arte” são duas formas de expressar a noção de conhecimentos sistematizados por princípios e causas que visam produzir. O uso de uma ou outra não altera o conceito a que se referem. De qualquer modo, eis a criação dos filósofos gregos e sua contribuição fundamental à história da cultura ocidental, conhecimentos buscados segundo si mesmos:

E, entre as ciências, consideramos ser sabedoria antes aquela que é escolhida em vista de si mesma e graças ao saber, de preferência àquela que é escolhida em vista dos resultados; e consideramos ser sabedoria antes a que comanda, mais do que a subordinada – pois é preciso que o sábio não seja mandado, mas mande; e é preciso não que ele obedeça a outro, mas que lhe obedeça o menos sábio.

E ainda: “Assim, tal como dizemos que é livre o homem que é em vista de si mesmo e não é de outro, do mesmo modo dizemos que apenas ela, entre os conhecimentos, é livre, pois apenas ela é em vista de si mesma”. Aristóteles esboça aqui a ideia da vida contemplativa (bios theoretikôs) como a forma de vida mais elevada. Assim, Aristóteles sugere uma divisão bipartida básica, também sugerida no logo começo do segundo livro da Metafísica:

Também é correto denominar a filosofia (philosophian) como ciência da verdade (epistêmên tês aletheias). O fim da ciência teórica (theoretikês) é a verdade, e, da ciência prática (praktikês), é a ação. De fato, se os que sabem agir também investigam de que modo as coisas se dão, estudam-nas não como eternas, mas em relação a algo e agora.

Como outros filósofos antigos, Aristóteles usa indistintamente as palavras “philosophia” e “epistême”. Isso quer dizer que ao falar de ciência Aristóteles fala de filosofia e da origem da filosofia (no primeiro livro, Aristóteles escreve “sophia”, no sentido amplo de sabedoria teórica). De novo, o uso de uma e outra não altera o conceito a que se referem, não obstante sutilezas em certos textos.

No começo do livro sexto da Metafísica, ao falar da física (physikê epistême) Aristóteles sugere uma divisão tripartida das ciências: “Todo conhecimento racional (dianoia) é ou prático (praktikê), ou produtivo (poietikê) ou teórico (theoretikê).” Sem entrar em detalhes filológicos, essa passagem sugere proximidade entre “dianoia” e “epistême” em sentido amplo. Este último sentido abarca ciência em sentido estrito, ou seja, conhecimentos demonstrativos de causas eternas e necessárias, e ciência em sentido lato, ou seja, conhecimentos operativos sistematizados por princípios e causas. Assim, pode-se pensar que existem três tipos de ciências: teórica, que existe para o fim de conhecer e inclui a filosofia primeira, a matemática e a física; prática, que diz respeito à conduta e à correção no agir e inclui a ética, a economia e a política; e produtiva, que visa à produção de objetos agradáveis e úteis e inclui a poética, a retórica, e medicina e diversas outras. De fato, no início do livro sexto da Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue claramente ação e produção, mas pode-se pensar uma e outra, ambas sob o sentido lato de ciência, visto que tratam não de noções necessárias, mas de ações e produções contingentes, voltando-se à divisão bipartida do início da Metafísica. Nesse sentido, no livro sexto da Ética a Nicômaco Aristóteles escreve: “Seja assumido que existem duas partes que têm um princípio racional: um que contempla as causas invariáveis (to epistêmonikon), e outro que contempla as coisas variáveis (to logistikon).” Estas palavras concordam com a divisão bipartida entre arte e ciência esboçada no primeiro livro da Metafísica que também fica implícita no começo do sexto livro, pois práticas e produções implicam coisas variáveis. Então, o estagirita escreve as definições “clássicas” de arte e ciência. Arte é a “disposição produtiva (hêxis poietikê) com reta razão” que “trata de trazer algo à existência (peri genesin) que pode ser ou não ser, cuja origem está naquele que faz, mas não na coisa feita”, no mundo da geração e corrupção. Ciência, por sua vez, é a “disposição demonstrativa (hêxis apodeitikê)” cujos objetos existem “por necessidade” e são eternos, “pois tudo o que existe por necessidade é eterno, e o que é eterno não vem a ser nem perece”. Arte e ciência estão classificadas em função de sua separabilidade da matéria. As melhores condições eram satisfeitas pela ciência ou filosofia primeira, cujos objetos, para Aristóteles, eram os mais separados e imóveis, sendo efetivamente melhores, mais excelentes e divinos.

IV. Autores latinos como Quintiliano sugerem que no mundo latino a palavra “ars” podia ser usada indistintamente no lugar de “scientia”. Quintiliano não foi filósofo como Aristóteles, ou seja, ele não desenvolveu a parte teórica da filosofia. Ele foi sobretudo um retórico, e a retórica fora classificada por Aristóteles como arte ou ciência produtiva. Entretanto, no início do tratado Institutio oratoria (Instituição da oratória) Quintiliano fala a respeito de artes (artes), que ele divide em teóricas, práticas e produtivas. As artes teóricas não demandam ação, mas contentam-se com a cognição e apreciação intelectual das coisas. As artes práticas requerem ação, como a dança e a retórica, e as artes produtivas produzem resultados, como a pintura. O uso da palavra “arte” não altera o conceito a que se refere, e a divisão tripartida segue Aristóteles, mas pode-se inferir que também é bipartida, nos termos elaborados acima. Aliás, desses usos surge o conceito de Artes liberales, conjunto de artes para a educação de qualquer homem livre que exercia-se na vida cívica. Organizadas por Marco Terêncio Varro no tratado Disciplinarum libri IX (Das disciplinas em nove livros), sete das artes liberais teriam uma longa fortuna ao longo dos séculos seguintes: gramática, retórica e lógica, ou seja, as disciplinas da linguagem que formavam o Trivium; e aritmética, geometria, astronomia e música, ou seja, as disciplinas matemáticas que formavam o Quadrivium. Esse aporte prático romano foi influente no Renascimento, como veremos, sobretudo através dos textos de Marco Tulio Cícero.

Considerado o último romano e, paralelamente, o primeiro escolástico, Manlio Severino Boécio traduziu textos lógicos de Aristóteles e escreveu comentários e textos originais a respeito de filosofia e das artes liberais. Em um comentário de juventude a Porfírio, Boécio divide a filosofia em duas partes, a filosofia teórica (theoretikê philosophia) e a filosofia prática (praktikê philosophia). Na parte teórica, Boécio coloca a dialética, que contempla as formas eternas e, assim, é a forma mais elevada; a física, que explica a natureza e as propriedades dos corpos, e é a forma inferior; e entre ambas, está a consideração pelos intelligibilia, que parece ser o estudo dos moventes celestes. Na parte prática, Boécio coloca a moral pessoal, a moral doméstica e a moral política, ou seja, ética, economia e política. A lógica é considerada como um instrumento para a filosofia, questão por sinal que Aristóteles deixara em aberto. Em grande parte, Boécio segue o esquema bipartido antigo, e não faz menção às artes ou ciências produtivas. Valia ainda o dito de Aristóteles: “Seja evidente, portanto, que a sabedoria é uma ciência a respeito de certos princípios e causas.”

V. Em suma, entre os filósofos antigos existiam conhecimentos operativos de princípios e causas que tinham fins práticos, sejam ativos ou produtivos, no mundo da geração e corrupção e eram usualmente chamados de artes, mas podiam ser chamados de ciências (ou ainda disciplinas, entre os romanos e latinos posteriores). Existiam também conhecimentos demonstrativos de princípios e causas eternos e necessários que tinham fins contemplativos, que eram usualmente chamados ciências, mas também podiam ser chamados de artes (ou ainda disciplinas). Dito deste modo, as relações entre artes e ciências não são tão difíceis, certo?

Isto posto, a imagem acima mostra um dos relevos feitos pela bottega de Andrea Pisano para o Campanário de Florença, os quais celebram as artes e ciências. Em uma época anterior à invenção da perspectiva, as figuras eram representadas em relação a sua importância. Neste caso, o arquiteto está em uma escala maior do que os dois homens que, efetivamente, fazem a torre, pois afinal “os mestres-de-obra sabem mais e são mais valiosos e sábios que os trabalhadores braçais”.

Comentários a um comentário

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Albrecht Dürer. Rinoceronte. Xilogravura, 23.3 x 29.2 cm, 1515. The Metropolitan Museum of Art, Nova York.

Comentários a um comentário

Eduardo Kickhöfel

Uma aluna do curso Ars proprium humanitatis escreveu um longo comentário ao post Tantas artes e ciências excelentes e divinas publicado no blog La natura delli strumenti mecanici. Sugiro aos leitores que o leiam, e aproveito o comentário dela para explicitar mais algumas questões prévias às matérias propriamente ditas.

Aprendo estudando e expondo matérias em aula, e aprendo também dialogando com alunos. De fato, o curso está encerrado, e sou imensamente grato aos alunos do curso por seu interesse e pelas oportunidades de discutir matérias renascentistas. Espero que os próximos posts expressem discussões que fizemos em sala de aula.

O curso teve por centro estudar relações entre formas de conhecimento práticas e teóricas no Renascimento, ou seja, entre artes e ciências. Estudamos questões que vinham de fontes antigas, pensando a respeito de definições e classificações de saberes. Cada fonte que escolhi rende um curso, no mínimo, e evidentemente não havia tempo para analisar uma a uma em detalhes. Não era esse nosso objetivo, de fato, e leituras dos prólogos de diversas fontes nos possibilitaram analisar relações entre artes e ciências. Sei de riscos envolvidos ao tratar de questões amplas, e temi abordar superficialmente fontes importantes. Entretanto, comentários que ouço e leio de meus alunos e de colegas, como os professores Thomas Leinkauf e Leonel Ribeiro dos Santos, sugerem que a abordagem que proponho talvez faça algum sentido. Claro, seguindo Aristóteles, não cabe a mim falar de minhas próprias virtudes.

Talvez o curso tenha sido uma espécie de prólogo a questões renascentistas. Nesse sentido, estivemos próximos do período que estudávamos. Seguindo a tradição retórica, Benedetto Varchi escreveu o texto Dei prolegomeni o precognizioni, que aponta para a importância dos prólogos, isto é, de que assuntos se escreve antes da disposição dos textos: o nome e a vida do autor, o título do livro, a utilidade das matérias, como elas estão divididas e outros itens. Talvez o item mais importante para quem estuda filosofia seja “Sotto che parte di Filosofia si riduce”, ou seja, sob que parte da filosofia se coloca o assunto de que se escreve:

Se la filosofia ha per obbietto tutto l’ente, cio è comprende tutte le cose di tutto l’universo, chiara cosa è che non si può ritrovare cosa alcuna in luogo veruno, la quale non caggia sotto la Filosofia; la quale fu divisa da alcuni in tre parte, da alcuni in due. Ma perchè cotale divisione è stata fatta e dichiarata da noi più volte, ci rimetteremo a quelle divisioni, e diremo solamente, che nel principio di tutte l’opere, si deve dichiarare se la materia che in cotal libro si tratta è scienza o arte.

Se a filosofia tem por objeto todo o ente, isto é, compreende todas as coisas do universo, clara coisa é que não se pode encontrar em lugar nenhum alguma coisa que não esteja sob a Filosofia, a qual foi dividida por alguns em três partes, e por outros em duas. Mas porque tal divisão foi feita e declarada por nós diversas vezes, remetemo-nos àquelas divisões, e aqui dizemos apenas que, no princípio de todas as obras, se deve declarar se a matéria de tal livro trata de ciência ou arte.

Varchi usa “filosofia” em sentido amplo, conceito que abarca tanto a parte prática como a parte teórica da filosofia, ou seja, artes e ciências. De fato, o par arte e ciência aparece em fontes tão diversas como o primeiro paragrafo do Il libro dell’arte (O livro da arte) do pintor Cennino Cennini, e no prólogo do tratado Della pittura (Da pintura), do humanista e arquiteto Leon Battista Alberti. O par também aparece nos tratados de Lorenzo Ghiberti e Francesco di Giorgio Martini fazendo referência direta ao arquiteto romano Vitrúvio. Diversas fontes do século XVI falam de artes e ciências, como no General trattato di numeri et misure (Tratado geral de números e medidas) de Niccolò Tartaglia, e o par em questão também está também presente no prólogo dos Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno à due nuove scienze (Discursos e demonstrações matemáticas em torno de duas novas ciências), de Galileu Galilei, publicado no século seguinte. Aliás, sob roupagens novas, relações entre artes e ciências estão presentes no mundo contemporâneo. Basta uma pesquisa “art science” usando o Google para ver milhões de resultados. Certo, a distinção entre artes e ciências que os antigos faziam não corresponde à distinção hoje feita. Entretanto, semelhanças e diferenças entre saberes práticos e teóricos ainda inquieta artistas e intelectuais.

Isto posto, voltando ao comentário ao post, não penso que perdemos ao deixar de lado a “unidade” da filosofia dos antigos ao Renascimento. Havia noções comuns que permitiam que artes e ciências fossem eventualmente aproximadas, e a nova ciência dos modernos resultou de aproximações de diversos tipos, como vimos em aula e veremos aqui. Entretanto, a filosofia da época estava uma espécie de beco sem saída. Eis Cesare Vasoli a respeito disso: “The typical humanist approach to the philosophical tradition was to seek out the most ancient sources unmuddied by centuries of dubious exegesis and to shift the chief focus of attention away from metaphysics towards ethics and politics in search of virtues with good classical credentials and yet relevant to the needs of their changing society.” Essa era uma das questões centrais naquele período, talvez a questão central desencadeou o Renascimento, e foi levada para o âmbito dos filósofos. Por exemplo, estudar os céus apenas lendo e interpretando textos de Aristóteles não bastava mais, e as observações de Tycho Brahe e Galileu Galilei mostraram que os céus aristotélicos não faziam mais sentido. Aliás, se a filosofia for considerada sobretudo em sua parte teórica que visava a vita contemplativa, ideia mais grega do que romana fortemente presente no mundo medieval, então o novo valor dado à vita activa pelos humanistas colocava em questão a própria ideia de filosofia.

A história da filosofia desde o século XVII mostra a dissolução dos quadros de saberes dos antigos. Desde então, muitas artes e ciências foram inventadas e elaboradas, em um processo de especialização contínuo. Além disso, o número de pessoas que hoje estudam e desenvolvem artes e ciências faz com que praticamente qualquer matéria tenha bibliografias imensas. No caso de Leonardo da Vinci, que conheço em certo detalhe, mesmo se for considerado que noventa e cinco por cento dos textos são inúteis, os cinco por cento que restam compreendem uma biblioteca de respeitável tamanho que requer anos de estudos. Não duvido que isso seja um problema. Entretanto, não sou nostálgico de um mundo que não conheci. Sabemos muito mais do que os renascentistas, e minha natureza otimista me leva a pensar que vivemos em uma época única em termos de conhecimentos, na qual se pode pensar e estabelecer conexões entre disciplinas consideradas diversas entre si. Aliás, vale dizer que não busco “unidade”, palavra talvez forte demais, mas a meus alunos digo que eles têm de saber muito de pouco, mas que também busquem saber pouco de muito para que o muito de pouco faça sentido.

Talvez meu destino seja ser um tipo de fronteira que aproxima disciplinas consideradas diferentes entre si. Minha formação em diversas áreas aponta para isso e, recordando Peter Kramer e Paola Bressan citados no primeiro post da segunda fase deste blog, “it might even be desirable if some of us become specialists not in any particular profession or research area but in integrating information from different disciplines”.

O Renascimento ocorreu há séculos, e quando muito conheço uma pequena fração de documentos selecionados por acasos e critérios que desconheço. Entretanto, mesmo sem ter o engenho e a arte de Albrecht Dürer, que jamais viu o rinoceronte que desenhou e gravou, talvez eu consiga esboçar partes de paisagens que jamais vi.

Tantas artes e ciências excelentes e divinas

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Albrecht Dürer. Dois desenhistas usando um aparato para desenhar um alaúde. Xilogravura, 13 x 18.2 cm, 1525. The Metropolitan Museum of Art, Nova York.

Tantas artes e ciências excelentes e divinas

Eduardo Kickhöfel

Os dois posts anteriores tratam de questões que apresento nas aulas iniciais de meus cursos. Como escrevi recentemente, trata-se de “set the stage for the understanding of what comes next”. Agora, publicarei resumos que vêm das notas de aula que escrevi para o curso Ars proprium humanitatis. As duas primeiras partes são Philosophiae partitio, que investiga definições e classificações de saberes, e L’arte è ritornata in luce, que mostra a volta dos antigos e do novo valor das artes. Nessas partes estão esboçadas as questões conceituais e as questões amplas do Renascimento. As duas partes específicas são Ars sine scientia nihil est, que trata das primeiras aplicações de ciências em artes; e Scientia sine arte nihil est, que aponta para a importância das artes na formação da nova física dos modernos.

Talvez eu faça modificações nesse roteiro, sobretudo na parte final, e acrescente uma aula a respeito de Galileu, arte e ciência. Seja como for, publicarei as referências bibliográficas ao final de cada parte. Até o final deste ano, as duas primeiras partes estarão neste blog. Em janeiro e fevereiro, quando estiver novamente em Florença, publicarei as duas partes restantes.

Philosophiae partitio

Quod igitur sapientia circa aliquas causas & principia scientia sit patet.” Partindo do início da Metafísica de Aristóteles e da ideia de que “a sabedoria é uma ciência a respeito de certos princípios e causas”, a aula visa estabelecer o léxico básico do curso, sobretudo os conceitos technê e epistêmê, traduzidos após por ars e scientia.

Favellando aristotelicamente.” Partindo da Philosophiae partitio de Gregor Reisch e de textos de Benedetto Varchi, estuda-se as definições e as classificações de saberes do Renascimento, sobretudo arte e scienza, e também autores como Angelo Poliziano e Franciscus Toletus, que semelhantemente abordaram classificações de saberes.

L’arte è ritornata in luce

Troviamo arti e scienze non udite e mai vedute.” Partindo da leitura de fontes de época, sobretudo escritas por humanistas e artífices como Leon Battista Alberti, a aula visa introduzir a rinascita dos antigos na Itália renascentista e também apontar para o novo valor dado à vita activa, sobretudo na Florença dos séculos XIV e XV.

Sumus quod sumus per artes.” Usando outra vez fontes de época, a aula visa questões da vida cívica e da cidade ideal pensada e planejada por humanistas como Coluccio Salutati, e também introduz o novo estatuto das artes e a nova ideia de filosofia no Renascimento, que colocava em questão a vita contemplativa dos antigos e medievais.

Ars sine scientia nihil est

Piacemi il pittore sia dotto, in quanto e’ possa, in tutte l’arti liberali.” A aula visa estudar a invenção da perspectiva pelo arquiteto Filippo Brunelleschi, sistematizada após pelo humanista e também arquiteto Leon Battista Alberti no tratado De pictura. Considera-se a perspectiva para uso dos pintores e escultores como a primeira sistematização de uma arte por uma ciência que visava operar seguramente e ensinar aos artífices explicar os princípios e causas de suas operações.

E conviene che literato sia.” A aula visa estudar o novo estatuto do artífice segundo o escultor Lorenzo Ghiberti em seu tratado I commentari. Seguindo Leon Battista Alberti, Lorenzo Ghiberti escreveu a respeito dos fundamentos das artes uma história dos artífices antigos, e também uma história dos artífices de sua época, que termina com sua autobiografia, a primeira conhecida de um artífice, e uma longa compilação de textos de óptica e outras matérias. Vê-se aqui em prática os novos estatutos das artes e dos artífices no Renascimento.

Com’è necessario al pittore sapere la notomia.” A aula visa mostrar Leonardo da Vinci como seguidor de Leon Battista Alberti e Lorenzo Ghiberti, assim como sua tentativa de identificar artes e ciências. Estuda-se a sistematização inédita que ele fez das artes mecânicas no Codice Madrid II e também seus manuscritos de anatomia, relacionados tanto com seus estudos de filosofia natural como sua carreira como sua carreira como pintor. Não obstante sua obra ser um work in progress jamais terminado, considera-se que a interação entre seus estudos de filosofia natural, seu engenho e sua arte de desenhar fornece um exemplo notável de como na cultura do Renascimento diversas formas de conhecimentos práticos e teóricos podiam existir conjuntamente.

Scientia sine arte nihil est

La nova scientia de Nicolo Tartaglia.” A aula visa mostrar que, se antes artes eram informadas por ciências, agora ciências precisavam de artes. Parafraseando Kant, as artes mecânicas sem a ciência mecânica eram cegas, e a mecânica sem as artes mecânicas era vazia. Leonardo da Vinci havia feito isso incipientemente, mas a obra de Niccolò Tartaglia fazia parte do contexto inédito de interesses mútuos entre práticos e teóricos. Galileu continuou esse processo no tratado As mecânicas, e os experimentos descritos em outros livros possivelmente foram concebidos nesse contexto.

Cavato dalle più recondite speculazioni di prospettiva.” Partindo dos instrumentos de Tycho Brahe descritos no livro Astronomiae instauratae mechanica, a aula visa mostrar a luneta aperfeiçoada por Galileu Galilei, objeto “feito das mais recônditas especulações de perspectiva” que pode ser considerado o primeiro instrumento científico moderno, do qual agora a nova filosofia natural dependia para avançar. Usando esse instrumento, Galileu desafiou a autoridade dos antigos, consolidou a nova astronomia de origem copernicana e selou o destino do mundo dos antigos.

Quantum uerò picturae illis intelligendis opitulentur.” Leonardo da Vinci também havia dissecado e feito desenhos de anatomia, mas Andreas Vesalius dissecou corpos humanos de modo sistemático e, sobretudo, ilustrou seu livro De humanis corporis fabrica de modo inédito, desafiando a autoridade e a distinção entre sensível e inteligível que vinham dos antigos. Galileu Galilei aparece no final desse processo ao utilizar gravuras como parte de seus argumentos no Sidereus nuncius, mostrando “como verdadeiramente as figuras ajudam a intelecção dessas coisas”.

Desde meados da década de noventa escrevo usando computadores, sobretudo Macs. Entretanto, quando planejo textos e cursos, faço esboços usando lapiseiras Rotring e as velhas e boas folhas de papel. Desenhei dezenas de esquemas de minha dissertação de mestrado, por exemplo, dos quais dois ou três talvez ainda existam em folhas de estudo. Analisar peças de Johann Sebastian Bach também fez parte desse processo, especialmente no que diz respeito a proporções das partes de cada peça. Desenhei minha tese de doutorado dezenas de vezes, assim como ainda faço desenhos do livro-catálogo que hoje finalizo. O esquema acima resulta de dezenas de páginas esboçadas, escritas e riscadas. Talvez eu tenha um senso de forma exagerado, mas gosto de pensar que sou um Homo aestheticus e cultivar lições de artífices renascentistas como Albrecht Dürer.

Algumas questões de método

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Albrecht Dürer. Desenhista usando um aparato para desenhar uma mulher deitada. Xilogravura, 7.7 x 21.4 cm, 1525 (impressão c. 1600). The Metropolitan Museum of Art, Nova York.

Algumas questões de método

Eduardo Kickhöfel

A distinção que faço no post anterior entre fazer filosofia e história da filosofia me parece pouco clara no meio acadêmico que conheço. Ao longo dos anos, raramente vi discussões sistemáticas a respeito desse tema. No grupo de história e filosofia da ciência de que eu fiz parte na época de doutorado, na USP, as poucas discussões de método tratavam da distinção entre história interna e história externa, sendo que a primeira visava análises intrínsecas dos textos analisados, a segunda contextos amplos dos textos, sobretudo condicionantes sociais e culturais. Não coloco em questão a importância dessa distinção, mas não recordo discussões a respeito de filosofia e história da filosofia. Talvez essa impressão venha apenas de minha experiência acadêmica, mas hoje meus alunos pouco reagem quando falo a respeito de diferenças entre uma e outra, e o uso de termos anacrônicos que leio frequentemente em textos acadêmicos talvez seja indício de poucas reflexões sobre o tema (embora o uso anacrônico de certas palavras não necessariamente sugira fazer filosofia, mas apenas história da filosofia feita imprecisamente).

Dois outros temas também me parecem pouco discutidos no meio acadêmico filosófico que frequento há mais de vinte anos. Escrevo agora a respeito de questões conceituais e questões amplas. Sócrates foi central no estabelecimento de questões conceituais, e as questões amplas estão esboçadas e desenvolvidas nos textos de Platão a ponto de Alfred N. Whitehead escrever sua famosa bravata: “The safest general characterization of the European philosophical tradition is that it consists of a series of footnotes to Plato.” Entretanto, poucos textos que leio esclarecem seus vocabulários, conceitos e também suas questões amplas, ao menos de modo a “setting the stage for the understanding of what comes next”. Entender sentidos de palavras muito usadas como “filosofia”, “ciência” e “arte” requer esforço, pois elas apontam para miríades de sentidos. Entretanto, seja a tarefa mais ou menos árdua para cada um, eis porque estuda-se filosofia. Como escreveu Gilbert Ryle, “philosophy is the replacement of category-habits by category-disciplines”. Aliás, questões conceituais e questões amplas dependem desse tipo de esclarecimento, as quais são, justamente, “the stage for the understanding” de pesquisas acadêmicas específicas.

No início do doutorado, o primeiro parágrafo de um livro obscuro de Whitehead, Modes of Thought, me fez pensar:

The first chapter in philosophic approach should consist in a free examination of some ultimate notions, as they occur naturally in daily life. There are no definitions of such notions. They are incapable of analysis in terms of factors more far-reaching than themselves. Each must be displayed as necessary to the various meanings of groups of notions, of equal depth with itself. In discussion of such a group any of its members might, with slight adjustment of language, have been chosen as a central figure.

Não foi fácil entender essas frases, pois como qualquer pessoa eu aprendera a usar línguas naturais automaticamente, como ao aprender a andar através de uma cidade sem ter noções do mapa que a descreve e, mais importante, sem saber noções mínimas a respeito de mapas. Talvez não tenha sido à toa que, em uma das primeiras reuniões daquele grupo de estudos de história e filosofia da ciência, após ouvir diversas vezes “racionalidade científica”, perguntei a meus colegas de que noção eles tanto falavam. Até hoje, espero respostas. Curiosamente, em meio a silêncios e imprecisões de diversos tipos, os usos cotidianos das línguas naturais sugerem definições essenciais. Fica claro em perguntas na forma “o que é”, que pressupõem conjuntos de condições necessárias e suficientes para definir as “essências” de tais objetos e tais fenômenos. As línguas comuns carregam uma espécie de platonismo escondido. Entretanto, elaboramos definições em relação a outras, e qualquer dicionário, não custa dizer o óbvio, define palavras usando palavras. Nesse sentido, outra passagem daquele obscuro livro de Whitehead me fez pensar:

Great advances in thought are often the result of fortunate errors. These errors are the result of oversimplification. The advance is due to the fact that, for the moment, the excess is not relevant to the use of the simplified notions. One of the chief examples of this truth is Aristotle’s analysis into genus, species, and sub-species. It was one of the happiest ideas possible, and it has clarified thinking ever since. Plato’s doctrine of division was an anticipation, vague and hazy. He felt its value. It did not do much good, by reason of its lack of decisive clarity. Among sensible people, Aristotle’s mode of analysis has been an essential feature in intellectual progress for two thousand years. Of course, Plato was right and Aristotle was wrong. There is no clear division among genera; there is no clear division among species; there are no clear divisions anywhere. That is to say, there are no clear divisions when you push your observations beyond the presuppositions on which they rest.

Ludwig Wittgenstein estava por perto. Distinguir elefantes de abacaxis não parece tarefa difícil, mas como distinguir populações de elefantes? A pergunta “o que é uma espécie” assombrava os taxonomistas com quem eu convivia naquela época, talvez porque eles assumiam tacitamente que existiam condições necessárias e suficientes para definir tais e tais espécies. Semelhantemente, quando começou o Renascimento? Se a questão for pintura, o primeiro artífice renascentista chamou-se Giotto di Bondone, louvado desde Dante Alighieri e que na, feliz expressão do pintor e tratadista Cennino Cennini, “rimutò l’arte del dipignere di greco in latino”, ou seja, mudou a pintura do grego para o latim. Entretanto, na época em que Giotto pintou a Cappella Scrovegni, por volta de 1305, os céus ainda eram aristotélicos. Se a questão for, então, a ordem do cosmos, Copérnico publicou o tratado De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções dos orbes celestes) em 1543, no qual ele descreve um universo em que o Sol está no centro e a Terra gira em torno dele, desafiando a ordem do cosmos aristotélico. Talvez seja uma boa data, mas bem longe não só de Giotto como também de Francesco Petrarca e dos primeiros humanistas florentinos. Além disso, em 1588 o astrônomo Tycho Brahe publicou o livro De mundi aetherei recentioribus phaenomenis (Dos recentes fenômenos do mundo etéreo), no qual propõe uma “nova mundani systematis hypotyposis”, ou seja, uma nova hipótese do sistema do mundo, segundo a qual a Terra era centro em torno da qual giravam a Lua e o Sol, e em torno desse último, por sua vez, giravam os planetas. O atlas celeste de Andreas Cellarius Harmonia macrocosmica (Harmonia macrocósmica), publicado na Holanda em 1660, ainda considera as três hipóteses acerca do cosmos. Concepções velhas e novas andavam lado a lado, em uma espécie de polifonia. Aliás, o cosmos de Copérnico só foi aceito pelos novos filósofos no final do século XVII, muito modificado por Johannes Kepler, Galileu Galilei e Isaac Newton, entre outros.

Não obstante triângulos e outros conceitos da matemática e da geometria, os conceitos formados no dia a dia usam línguas naturais e dependem de contextos, e têm limites determinados por objetivos específicos segundo critérios específicos. Assim, talvez seja importante pensar no sentido de “relembranças de família”, como está escrito no começo do parágrafo 67 das Philosophical Investigations: “I can think of no better expression to characterize these similarities than ‘family resemblances’; for the various resemblances between members of a family a build, features, colour of eyes, gait, temperament, and so on and so forth a overlap and crisscross in the same way.” Dito de outro modo, ao definir um objeto ou fenômeno, a ideia de “relembranças de família” não admite uma definição simples nos termos de um conjunto de condições necessárias e suficientes, mas admite a ideia de condições que se intersectam de modo complexo de acordo com seus usos em seus respectivos contextos históricos. Assim, ao escrever a palavra “Renascimento”, que se saiba seus limites.

Isto posto, primeiro, pensemos vocabulários e conceitos básicos do Renascimento e, após, algumas das questões amplas do período. Vocabulários e conceitos visam articular questões amplas entre si, que por sua vez articulam questões específicas. Certo, estando a cinco séculos de distância dos objetos de estudo, não há como evitar anacronismos. O simples fato de que cito neste post Whitehead e Wittgenstein aponta para isso. Entretanto, assim talvez seja possível realizar análises e interpretações mais compatíveis com a época em questão do que ao usar disciplinas contemporâneas. De fato, mais do que questões específicas, estou interessado em desenvolver um amplo framework que possa ser aplicado em diversas pesquisas, absorvendo resultados importantes de disciplinas contemporâneas que são posteriores às obras estudadas.

Sou desenhista nas horas perdidas. Às vezes penso que, ao fazer história da filosofia do Renascimento, faço esboços que talvez proporcionem ideias de uma ampla paisagem. Para isso, elaboro métodos de estudo que talvez sejam semelhantes ao aparato que Albrecht Dürer ilustra na imagem acima. Talvez eu seja um péssimo desenhista, quem sabe, mas, parafraseando Leon Battista Alberti, melhor que eu seja corrigido por meus amigos do que mordido por meus detratores.